Chakanagem by Carl Chaka

Blogger Para Publicação de Músicas, Poesias e Poemas, Versos, Rimas, Cordel, Literatura Sertanejo.

Minha foto
Nome: Carl Chaka
Local: Natal, RN, Brazil

Eu sou como você, da espécie humana, sou capaz de errar. O erro não é falha de caráter e errar faz parte da natureza humana. I am like you, of the human species, I am capable to wander. The mistake is not defective of character and to wander is part of the human nature.

15 Novembro 2007

[Poema] ' Subúrbios '

' Subúrbios '
(Celso Brito)

trago-me preso a um desejo
de me unir ao vento
arrastar as ondas
e atirá-las nas pedras

traço-me em planos
tortos, obtusos, interrogativos
arrisco-me em pequenos versos
em espaços ínfimos

ergo-me simétrico
lanço-me em linha reta
só o tempo curva em mim

há um dor que me atravessa
que risca minha poesia
afogada em tantas indagações

[Poema] ' Encontro '

' Encontro '
(Celso Brito)


Procuro os que sabem de mim.
Os que disseram ter me ouvido falar.
Os que me encontram, quando me perco.

Em quantos poemas estou presente?
Em qual deles era verdade?

Perco-me um pouco todo dia,
para me encontrar em tantos outros.
Não revelo, nem disfarço.
Apenas passo.
Mas há momentos em que me demoro.

12 Agosto 2007



Pai...
Hoje senti uma falta de você...
Do seu jeito de ser
Do seu modo de se preocupar
Dos seus telefonemas
Do seu sorriso
Do seu olhar
Do seu silêncio
Do seu movimento
Da maneira como gesticulava
E se empolgava quando algo contava

Pai...
Me perdoa pela saudade imensa
Pela falta que você me faz
Mesmo sem falar nada
Eu entendia o que queria
O que pensava, o que emitia
E seguia, como se nada o preocupasse

Pai...
Muitas saudades sinto de você
Mas não posso reclamar
Tenho que me conter
Foram só momentos de lembrança
Que hoje eu tive de você
Talvez por me sentir mais criança
Por querer me apoiar em uma esperança
Ouvir palavras que só você sabia me dizer

Pai...
Sei que continua ao meu lado
Só não posso olhar o seu rosto
Mas vejo no seu retrato
Uma luz forte, iluminando o meu quarto
E sorrio de novo, quando olho para o seu rosto
Porque escuto você me dizendo
Que enquanto aqui, estou sofrendo
Pela sua ausência e seu carinho
Você constrói nosso novo cantinho
Para de novo, um dia...
Estar juntinho de novo, com você

======================

Pode ser novo, pode ser velho;
Pode ser branco, negro ou amarelo;
Pode ser rico ou pobre;
Pode ser solteiro, casado, viúvo ou divorciado;
Pode ser feliz ou infeliz;
Pode estar aqui ou já ter ido embora;
Pode ter tido filhos ou adotado-os;
Pode ter casa ou morar na rua;
Pode usar terno ou tanga;
Pode ser Deus ou humano;
Pode estar trabalhando ou desempregado;
Pode ser tanta coisa ou simplesmente PAI.


Mas todos, sem faltar um
sequer fazem parte da Criação.
Que não só hoje,
mas em todos os dias desta vida
possas ser lembrado como aquele que:
muitas vezes não dormiu,
muitas vezes ficou pensando
na comida para levar para casa,
muitas vezes engoliu sapos,
muitas vezes chorou escondido,
muitas vezes gargalhou,
muitas vezes perdeu a hora,
mas nunca deixou de pensar
na coisa mais importante da sua vida:
NÓS!!!!


=======================

Quando um homem percebe que seu pai tinha razão...
...ele já tem um filho que acha que ele está errado.

Não há ninguém no mundo
igual a você...

Em todos os dias do ano,
não há nenhum outro dia
como hoje

quando o amor que sentimos por você
é honrado de um modo especial...

Hoje homenageamos você
com alegria extra e gratidão
por toda a felicidade que
você dá a nossas vidas.

Não há ninguém como você...
E ninguém ama você
mais do que nós amamos...

Feliz Dia do Papai!

==========================

Te vi estranho
quando tentavas inventar
um idioma para comigo falar.

Te vi criança,
quando fostes meu companheiro
nas brincadeiras da infância.

Te vi orgulhoso,
quando dizias que eu era
a tua semelhança.

Te vi amigo,
nas horas que encontrava
tuas mãos a me amparar.

Te vi adversário,
quando teus cuidados
fizeram algo me negar.


Te vi alegre,
quando compartilhamos
vitórias e emoções.

Te vi forte,
para me incentivar
quando tua vontade era chorar

Te vi fraco,
para me mostrar,
que as vezes caímos,
mas o importante é
ter forças para levantar.

Te vi apreensivo,
quando comecei a criar asas
para vôos independentes alçar...


E por tudo que eu vi
Hoje eu posso afirmar
que és muito mais que um Pai...

Um Ser Humano
sempre tentando acertar...

Um grande e eterno amigo!
O amigo que se quer ter,
e em ti pude encontrar.

E assim sempre será,
Pai, irmão, amigo onde quer que tu estejas,
eternamente serás...

=============================


- Carta de um Filho -

Pai, eu sei que você gostaria que houvesse um jeito de fazer-me enxergar a vida através dos seus olhos bem mais experientes, poupando-me de tropeçar pelo caminho.
Eu sei que você gostaria de ter as costas mais largas para carregar também os meus fardos, para aliviar-me de pesos.

Pai, eu sei que às vezes o mundo é cruel e que viver nele pode ser uma árdua tarefa, mas sei também que você gostaria de construir um mundo onde só houvesse o melhor para mim e onde o tempo não fosse tão curto para aprendermos a Vida,
onde não houvesse pessoas capazes de ferir-me,
onde eu pudesse apenas brincar de viver.
Eu sei que você gostaria de dar-me esse presente.

Pai, eu sei da tristeza que você sente por não poder impedir que eu sofra, que eu fique doente, que abusem de mim, que os perigos me rondem e que a fé se desfaça em meu coração.

Sei das cicatrizes que você carrega, provocadas por ferimentos
que já me atingiram no passado.
Sei das suas angústias e sobressaltos quando algo ameaça o meu tempo presente.
Sei das suas vontades e ansiedades voltadas para o meu futuro.

Ah, Pai, que maravilhoso futuro você gostaria que eu vivesse!
Eu sei disso, Pai.

E por saber tanto, eu lhe peço, ouça-me:
Se dores eu sofri, maiores elas teriam sido sem a sua presença.
Se em pedras muitas vezes eu tropeço e caio, lembro-me que
foi você quem ensinou-me a levantar.
Se olho para o futuro e sinto medo, ele se vai assim que eu recorro à fé que você plantou em mim.

Agradeço a Deus por ter escolhido você para orientar os meus passos.

Foi com você que aprendi que quando a jornada torna-se difícil
Ele nos toma nos braços.
Obrigado, Pai!

============================


...nunca tivemos tempo de nos olhar e dizer um ao outro:
Eu te amo !!!
Nossas gerações não se compreendiam...
Fui rebelde! e você Casmurro...
Eu não entendia sua forma de amar...
E somente acordei depois que você partiu...
Hoje, a saudade traz lembranças e a certeza que está bem,
de que cumpriu sua missão.
Agradeço a Deus por ter nascido de pais maravilhosos
como você e minha mãe.
Agradeço a você meu pai pela jornada difícil que empenhou
na educação de seus filhos.
Um beijo...
Onde estiver...

Seu(a) Filho(a)

Você é o meu maior amigo
Tudo que eu sou devo a você
Onde eu for você está comigo
Sua mão sempre a me proteger
Trago no meu canto uma verdade
Que eu guardo no meu coração
É possível ter até saudade
De quem vive na imaginação

Você meu pai, que me ensinou
Que na tristeza sempre resta uma esperança
Você meu pai, que me mostrou
Que todo homem guarda um sonho de criança
Você falou e acreditou
Que a fé remove qualquer pedra do caminho
Você viveu com muito amor
Me ensinando que ninguém está sozinho
Eu aprendi e sei que nada
É mais bonito que um sorriso de criança
Saber amar e perdoar
São coisas simples que eu trago na lembrança
Eu quero ver o sol nascer
E os passarinhos livres despertando as flores
Eu quero crer e quero ter
Um arco-íris sobre a terra toda em cores
Quero sentir que o coração
Ainda guarda um lugar pros sentimentos
Eu vou gritar pro mundo ouvir:
"O amor está presente em todos os momentos"!

Você meu pai, meu grande amigo
Que me ensinou a perdoar meus inimigos
Eu vim dizer e agradecer
Pois não seria o que sou sem ter você.



==========================



Homenagem ao Pai



Pai, você é a razão de minha vida.
Deus é realmente maravilhoso,
ele criou o mar para encantar o universo
com o mistério de suas águas.
Ele criou a natureza, para brilhar no nosso amanhecer,
com o frescor da sua beleza, ele colocou estrelas no céu,
para que iluminasse os nossos caminhos.

E ele, na obra máxima de sua criação, me deu você!
Pai querido que enfeita o meu caminho e alegra
os meus dias com o sorriso e sua força.

Sem você Pai, o que eu poderia encontrar...
caminharia pelo mundo sem ter os braços abertos,
mas sim; de punhos fechado, de olhos cerrados,
e coração solitário.

Você representa todos os meus sonhos,
é por você que construo castelos,
é para você que escrevo histórias nas páginas
da minha história, da nossa história, do nosso cotidiano.

Pra mim, basta apenas Pai, que caminhe comigo
Ajudando a contar as estrelas do céu,
Ensinando-me a traçar novos rumos,
ensinando-me novamente ser aprendiz,
porque você tem o poder de trazer ao meu mundo
o brilho da lua, a magia da noite, a suavidade da brisa,
o calor do sol.

Você foi o mais maravilhoso presente de Deus,
sem você não haveria motivo para eu existir...

Obrigado, te amo muito.

12 Maio 2007



...nunca deixará de me amar


Stanley D. Moulson

Eu cresci em uma família muito normal com dois irmãos e duas irmãs. Embora naqueles tempos não tivéssemos muito dinheiro, sempre me lembro dos meus pais levando-nos para fazer piqueniques ou para ir ao zoológico nos fins de semana.

Minha mãe era uma pessoa muito afetuosa e dedicada. Estava sempre pronta para ajudar alguém e freqüentemente trazia para casa animais perdidos ou machucados. Embora tivesse cinco filhos para criar, sempre encontrava tempo para ajudar ao próximo.

Eu penso na minha infância e vejo os meus pais não como marido e mulher com cinco filhos, mas como duas pessoas recém-casadas muito apaixonadas. O dia era para ser passado conosco, as crianças, mas a noite era a sua hora de estar um com o outro.

Lembro-me de que numa noite estava deitado na cama. Era domingo, 27 de maio de 1973. Eu acordei com o som dos meus pais voltando para casa depois de uma noite fora com alguns amigos. Eles estavam rindo e, quando os ouvi indo para a cama, virei de lado e voltei a dormir, mas nesta noite todo o meu sono foi agitado por pesadelos.

Na manhã de segunda-feira, 28 de maio de 1973, acordei. O dia estava nublado. Minha mãe ainda não havia acordado, por isso todos nós nos arrumamos e fomos para a escola. Durante todo aquele dia, tive uma sensação de um vazio interior. Depois da escola, voltei para casa.

- Oi, mãe, estou em casa. - Não houver resposta. A casa parecia gelada e vazia. Senti medo. Tremendo, subi as escadas e fui para o quarto dos meus pais. A porta estava apenas entreaberta e eu não pude ver tudo lá dentro. - Mãe? - Eu a abri totalmente para poder ver todo o quarto, e lá estava a minha mãe deitada no chão ao lado da cama. Tentei acordá-la, mas não consegui. Então soube que estava morta. Eu dei meia-volta, saí do quarto e fui para o andar de baixo. Sentei-me no sofá em silêncio durante muito tempo, até a minha irmã mais velha voltar para casa. Ela viu-me sentado ali e imediatamente subiu correndo as escadas.

Eu fiquei sentado na sala de estar e observei enquanto o meu pai falava com o policial. Vi a minha mãe ser carregada em uma maca para a ambulância. Tudo que pude fazer foi sentar e olhar, nem mesmo pude chorar. Nunca havia pensado em meu pai como um homem idoso, mas naquele dia, quando o vi, ele nunca pareceu tão velho.

Terça-feira, 29 de maio de 1973. Meu 11º aniversário. Não houve música, festa ou bolo, apenas silêncio enquanto nos sentávamos ao redor da mesa de jantar olhando para a nossa comida. Era minha culpa. Se eu tivesse voltado para casa mais cedo ela ainda estaria viva. Se eu fosse mais velho ela ainda estaria viva. Se...

Durante muitos anos, tive o sentimento de culpa pela morte da minha mãe. Pensei em tudo que poderia ter feito. Todas as coisas desagradáveis que dissera para ela. Realmente acreditava que porque eu era criança-problema, Deus estava punindo-me, levando-a. O que mais me perturbava era o fato de não ter tido a chance de dizer adeus. Nunca mais sentiria o seu abraço carinhoso, o cheiro adocicado do seu perfume ou os seus beijos suaves quando ela colocava-me na cama, à noite. Para a minha punição, tudo isso foi tirado de mim.

No dia 29 de maio de 1989, meu aniversário, eu estava sentido-me muito solitário e vazio. Não me havia recuperado dos efeitos da morte da minha mãe. Estava muito perturbado emocionalmente. Minha raiva de Deus atingira o seu auge. Eu chorei e gritei para Ele:

- Por que levou minha mãe? Nem mesmo me deu a chance de dizer adeus. Eu a adorava e o Senhor a tirou de mim. Eu só queria abraçá-la mais uma vez. Eu o odeio! - Eu sentei-me na sala de estar, soluçado. Senti-me esgotado. Subitamente, fui tomado por uma sensação de calor. Pude sentir fisicamente dois braços abraçando-me, um aroma familiar mas há muito esquecido. Era ela. Senti sua presença, o seu toque e o seu perfume. O Deus que eu odiara atendera ao meu desejo. Minha mãe estava vindo para mim quando eu precisava dela.

Hoje sei que minha mãe está sempre comigo. Ainda a amo de todo o coração, e sei que sempre estará ao meu lado. Justamente quando eu havia desistido e resignado-me com o fato de que se fora para sempre, ele fez-me saber que nunca deixaria de me amar.








EU QUERIA, UM DIA, DAR A LUZ A UM POEMA.
POEMA QUE LEMBRASSE TODA TERNURA E DOÇURA
DO SEU COLO ACONCHEGANTE,
DAS SUAVES CANTIGAS ANTIGAS DE NINAR,
DO VAI E VEM DA REDE NO CANTO DA SALA.

UM POEMA QUE LEMBRASSE O CANTO DOS PÁSSAROS EM REVOADAS,
O SOL SE PONDO E AS NOITES ENLUARADAS.
UM POEMA QUE LEMBRASSE A ROSEIRA COR DE ROSA
APINHADINHA DE FLOR, E O MANACÁ
MULTICOLORIDO EXALANDO O SEU ODOR.

UM POEMA QUE RETRATASSE AQUELA BRINCADEIRA DO DEDINHO
"MINDINHO, SEU VIZINHO, PAI DE TODOS, FURA-BOLO,MATA-PIOLHO ".
UM POEMA QUE DESPERTASSE EM CADA CANTO
A INSPIRAÇÃO DAS MUSAS ! QUE FALASSE EM VOZ PROFUSA DESSE SENTIR
TÃO PROFUNDO, BEM MAIOR QUE O MUNDO... O MEU AMOR POR VOCÊ !

POEMA QUE LEMBRASSE A ALEGRIA DO AMANHECER
E OS VERSOS BATESSEM NA ALMA, COMO
O FRESCOR DA GOTA DE ORVALHO SOBRE A RELVA
E O CHEIRO DA TERRA QUANDO A CHUVA CAI.

UM POEMA QUE RASGASSE AS FRONTEIRAS CORRENDO
VELOZ, COMO UMA LENDA, DOMINASSE O UNIVERSO,
PRA CONTAR À TERRA INTEIRA, A GRANDE MÃE QUE VOCÊ FOI !
TENTO DIZER... AS PALAVRAS ESTÃO PRESAS DENTRO DE MIM,
TALVEZ POR EU TER SIDO TÃO SUA E VOCÊ TÃO MINHA, EU
TÃO CARNE DE SUA CARNE, TÃO SANGUE DO SEU SANGUE...

E SERMOS AINDA HOJE, TÃO IGUAIS...TÃO PARECIDAS, TÃO LIGADAS...
APENAS EM PLANOS DIFERENTES, É QUE;
PALAVRAS JAMAIS PODERÃO EXPRESSAR OS NOSSOS SENTIMENTOS.
POR ISSO MÃE ! O MEU POEMA ESTÁ ESCRITO DENTRO DA MINHA ALMA !





Ah, essas mães!


Quando nos vem à mente uma figura de mãe, sempre surge acompanhada de um misto de divino e humano.

É muito rara a pessoa que não se comova diante da lembrança de sua mãe.

Meninos que abandonaram o lar por motivos variados, e vivem nas ruas, quando evocam suas mães,
uma onda de ternura lhes invade o ser.

Por que será que as mães são essas criaturas tão especiais?

Talvez seja porque elas têm o dom da renúncia...

Uma mãe consegue abrir mão de seus interesses para atender esse serzinho indefeso e carente que carrega nos braços.

Mas as mães também têm outras características muito especiais.

Um coração de mãe é compassivo.
A mãe sempre encontra um jeito de socorrer seu filho, mesmo quando a vigilância do pai é intensa.

Ela alivia o castigo, esconde as traquinagens, defende,
protege, arruma uns trocos a mais.

Sim, uma mãe sempre tem algum dinheiro guardado, mesmo convivendo
com extrema necessidade, quando se trata de socorrer um filho.

Mães são excelentes
guarda-costas.
Estão sempre alertas para defender seu filho do coleguinha "terrorista",
que quer puxar seu cabelo ou obrigá-lo a emprestar seu brinquedo predileto...

Quando a criança tem um pesadelo no meio da noite, e o medo apavora, é a mãe que corre para acudir.

As mães são um pouco fadas, pois um abraço seu cura qualquer sofrimento, e seu beijo é um santo remédio contra a dor...

Para os filhos, mesmo crescidos, a oração de mãe continua tendo o poder de remover qualquer dificuldade, resolver qualquer problema,
afastar qualquer mal.

No entender dos filhos, as mães têm ligação direta com Deus, pois tudo o que elas pedem, Deus atende.

O respeito às mães perdura até nos lugares de onde a esperança fugiu.

Onde a polícia não entra, as mães têm livre acesso, ainda que seja para puxar a orelha do filho que se desviou do caminho reto.

Até o filho bandido respeita sua mãe, e lhe reverencia a imagem quando ela já viajou para o outro lado da vida.

Existem mães que são verdadeiras escultoras.
Sabem retirar da pedra bruta que lhe chega aos braços, a mais perfeita escultura, trabalhando com o cinzel do amor
e o cadinho da ternura.

Ah, essas mães!

Ao mesmo tempo em que têm algo de fadas, também têm algo de bruxas...

Elas adivinham coisas a respeito de seus filhos,
que eles desejam
esconder de si mesmos.

Sabem quando querem fugir dos compromissos, inventam desculpas e
tentam enganar com suas falsas histórias...

É que os filhos se esquecem de que viveram nove meses no ventre de suas mães, e por isso elas os conhecem tão bem.

Ah, essas mães!

Mães são essas criaturas especiais, que Deus dotou com um pouco
de cada virtude, para atender as criaturas, não menos especiais,
que são as crianças.

As mães adivinham que a sua missão é a mais importante da face da Terra,
pois é em seus braços que Deus deposita Suas jóias, para que fiquem
ainda mais brilhantes.

Talvez seja por essa razão que Deus dotou as mães com sensibilidade e valentia,
coragem e resignação, renúncia e ousadia, afeto e firmeza.

Todas essas são forças para que cumpram a grande missão de ser mãe.

E ser mãe significa ser co-criadora com Deus, e ter a oportunidade de construir
um mundo melhor com essas pedras preciosas chamadas filhos...

02 Maio 2007

[poesia] "Davidson Alves"

Quando penso em você...


Quando penso em você me sinto flutuar,
me sinto alcançar as nuvens,
tocar as estrelas, morar no céu...

Tento apenas superar
a imensa saudade que me arrasa o coração,
mas, que vem junto com as doces lembranças do teu ser.

Lembrando dos momentos
em que juntos nosso amor se conjugava
em uma só pessoa, nós ...


É através desse tal sentimento, a saudade,
que sobrevivo quando estou longe de você.
Ela é o alimento do amor que encontra-se distante...


A delicadeza de tuas palavras
contrasta com a imensidão do teu sentimento.
Meu ciúme se abranda com tuas juras
e promessas de amor eterno.


A longa distância apenas serve para unir o nosso amor.
A saudade serve para me dar
a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos...


E nesse momento de saudade,
quando penso em você,
quando tudo está machucando o meu coração
e acho que não tenho mais forças para continuar;
eis que surge tua doce presença,
com o esplendor de um anjo;
e me envolvendo como uma suave brisa aconchegante...


Tudo isso acontece porque amo e penso em você...

[Poesia] "Deixe-me"

Roger...
(dedicado à menininha)


Menininha,
deixe-me lhe fazer feliz,
fazer o que nunca fiz,
oferecer-lhe o que você nunca teve,
realizar nosso sonho esperança.

Deixe-me tocar sua pele,
e com sussurros de amor
efervecer sua alma,
pulsar seus pensamentos
acendendo novos desejos.

Deixe-me acordar você com beijos
em leves toques,
acariciar seus lábios com os meus
e despertar em você
sentimentos adormecidos e esquecidos.

Deixe-me olhar seus olhos,
navegar seu mundo,
conhecer seu universo.

Deixe-me deixar
você ser o que quero que seja para mim,
a cada palavra, a cada toque...

Deixe me ser vital para você,
como você é para mim
no respirar,
no pulsar do coração,
na melodia da vida,
na luz que nos ilumina.

Deixe-me ser seu menino,
com seu carinho me faça crescer,
com seu corpo me faça abrasar
e com seu amor me faça sempre te amar.

[poesia] "Davidson Alves"

Naufrágio...

Ao relento, venho me despedir,
com muita tristeza no coração...
tristeza,
que enfado de corpo e alma,
e pensamentos que só me levam a você.

Sem você,
sinto um vazio profundo,
sinto-me,
como um navio em alto mar,
talvez,
perdido em meio a uma tempestade,
talvez,
cansado de esperar por socorro...

Nem o mais forte vento,
nem a mais densa neblina,
poderá me separar de você,
por que o destino nos uniu,
e nada nos separará...

Fico aqui esperando por você,
esperando que diga,
que me quer por inteiro,
e será minha para sempre...

Espero que venha me salvar,
na imensidão deste mar...




Bel Prazer


Queria ter você por uma noite,
para poder te dizer e te mostrar,
o que eu tenho para te oferecer...

Dar-te carinhos,
abraços,
amassos...

Dar-te-ei também,
meu coração,
cheio de amor,
esperança.

Sentimentos que se unem,
e fazem florescer a paixão,
que está presa dentro do meu ser...
Está escondida,
e só se mostrará para você.

Mostrar-te-ei também o caminho,
o caminho da felicidade,
que todos procuram,
mas poucos encontram!

Só aquele de coração puro,
De sentimentos verdadeiros,
Consegue encontrar o caminho
da felicidade plena...





Amor é fogo que arde sem se ver

(O sonêto 11 de Luiz Vaz de Camões, foi adaptado musicalmente pelo grupo "Legião Urbana". Sua forma original é tirada do texto bíblico 1 Coríntios 13)


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

26 Março 2007

[Poesia] "AOS MEUS FILHOS"

AOS MEUS FILHOS
Luís Jucá Arrais Maia
Quando eu morrer, se for cremado,
lancem minhas cinza
sao léu, num vôo de liberdade
e como poeira fertilizante
sobre a terra caia.
Porque assim:
Serei ESPERANÇA
na relva que nasce
Serei BONDADE
na sombra que abriga
Serei CARINHO
na brisa que afaga.
Serei SAUDADE
na árvore que tomba
Serei VIDA
no grão que alimenta.
Serei LÁGRIMA
no orvalho que se desfaz.
Serei LUZ,CALOR
na labareda que aquece e ilumina.
Serei AMOR
na ternura da flor que desabrocha
Serei ALEGRIA
na festiva alvorada da madrugada.
E no contraste da vida do morto vivo
Estarei presente
na PERVERSIDADE
dos espinhos que enfeitam os cactose
na INGRATIDÃO dos que protegem as rosas.
Estarei presente
na MALÍCIA disfarçada da urtiga
e na MALDADE
agressiva do carrapicho.
Estarei presente
no ORGULHO
do ipê floradoe
no EGOÍSMO
do mandacarusem sombra.
Enfim, meus filhos:
No sussurro do vento,
Na folha que cai...
A qualquer momento
Encontrarás teu pai.

[Poesia} "História de Amor"

História de Amor
Joseph E. de Sousa
Na hora certa do plantio, num chuvoso abril,
semente sedenta de vida,
caíste no solo do meu coração que te esperava.
Germinaste, cresceste, criaste raízes.
Teus braços verdes se levantaram para o céu.
Chegaram as douradas flores,
seguidas de frutos generosos,
frutos que saciaram todas as minhas fomes.
Na tua sombra me abriguei,
no teu perfume me embriaguei.
No verde de tuas folhas, encontrei esperança.
Nas tuas flores, novos mundos de beleza.
As tuas raízes penetraram profundas
no solo ansioso e fértil do meu coração,
num eterno abraço de amor,
e me ligaram a ti, inseparavelmente, para sempre.

[Poema] "Meu Sonho"

Meu Sonho
Cecília Meireles

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar ?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

[Poesia] "O Sorriso"

O SORRISO
Cris Iris
O Sorriso é uma conseqüência direta da felicidade.
O Sorriso é a expressão mais bonita que o ser humano tem.
O Sorriso embeleza qualquer pessoa,
independente de sua aparência.
O Sorriso nos trás forças e esperanças
para lutarmos contra todos os empecilhos.
O Sorriso é universal, tem reflexos por toda parte.
Quando Sorrimos, mostramos que estamos felizes,
de bem com a vida; mostramos que temos esperança
e que não nos deixaremos levar pelos problemas.
Quando Sorrimos passamos a nossa alegria para quem nos ama,
e não damos prazer para quem quer nos ver chorar.
Portanto, SORRIA SEMPRE
para que o amor que está em Você, BRILHE.

[Poesia] "PRECISO DE TI"

PRECISO DE TI
Ricardo Gadelha de Abreu

Preciso de ti para ir à felicidade,
para encontrar a alegria.
Preciso de ti para servir o mundo,
para saber valorizar o meu irmão.
Preciso de ti para socorrer os mais fracos,
para dar abrigo aos sofredores.
Preciso de ti para caminhar,
para dar passos firmes.
Preciso de ti para não tropeçar,
para erguer o olhar confiante.
Preciso de ti para respirar,
para curar as minhas angústias.
Preciso de ti para ser a música,
para cantar a esperança.
Preciso de ti para ter a paz,
para seguir com o Pai Divino.
Preciso de ti para sorrir,
para afastar as tristezas.
Preciso de ti para pensar no futuro,
para fortificar o presente.
Preciso de ti para ser gente,
para crer no meu interior.
Preciso de ti para despertar sabedoria,
para desvendar certos mistérios.
Preciso de ti para ser criança ,
para ser a simplicidade.
Preciso de ti para pedir carinho,
para trazer emoção.
Preciso de ti para sonhar,
para amar, para viver...

[Poema] "SAUDADE"

SAUDADE
Nelson de Medeiros Teixeira

Me perguntas o que é Saudade...

Saudade, eu te juro, é verdade !
É tristeza sem fim, um vazio...
Presença distante,
um olhar suplicante,
um mundo sombrio!

Saudade é a esperança sofrida,
um coração já sem vida
que a nostalgia amortalha...
Bem maior do que a dor,
a saudade é como a flor
que o orvalho da noite agasalha...

Saudade é isto, não me iludo.
Um vento frio,
um olhar perdido, distante e mudo...
Uma sombra que a alma acaricia...
Saudade é como o vento,
que rasga o espaço e deixa seu sopro por traço...
É como a noite surgindo sempre após o dia...

Saudade é mesmo um simples beijo,
uma lembrança fagueira, uma criança trigueira,
um soluço no peito represado,
um grito na garganta sufocado...
Saudade é um vestido cor de rosa,
um laço de fita no cabelo que se agita,
uma angústia dolorosa.

Saudade é muitas vezes
a flor que nasce de um botão,
o mar bravio, a imensidão, a noite fria,
uma canção, e até os versos que te fazia...
Saudade é a tarde fugindo,
é a noite surgindo,
trazendo a dor que consome...

Saudade é a lua saindo,
do fundo do mar emergindo,
riscando em prata teu nome!
Me perguntas o que é saudade...
Saudade, eu te digo:
É como a dor inclemente,
só sabe mesmo é quem sente...

(Nelson de Medeiros Teixeira)

[Poesia] Sossega

Sossega
Fernando Pessoa
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

05 Janeiro 2007

[Poemas] "Caroline"

SEGUINDO


Talvez eu demore a te esquecer,
Talvez não te esqueça jamais,
Mas no momento, meu
olhar despreza os caminhos
semeados por estrelas
espalhadas ao léu.

Dirijo o meu olhar
além das sombras do passado,
e sigo em frente,
infinito absoluto
recheados de serenas noites,
estreladas ou não...
O importante é que sei:
dias melhores virão!


Jardins do Éden


Pálpebras pesadas,
sensação de latência amorosa,
alma lavada,
coração sequestrado,
fascinação em ação.

De repente, o zumbido
em fá sustenido,
e a luz,
azul, diamantina,
envolvente, divina.

Iluminado, se eleva e
atravessa os nove céus,
penetra a caverna do mais puro jade
e se senta,
no centro,
feliz, à vontade.

Estalactites, estalagmites,
verdes, zilhões de verdes,
all green!
Extasiado, fecha os olhos e vê,
ela,
Vênus, Psiquê, Afrodite,
Shakti, Isis, Oxum,
Nefertit...
Mulher, Mito e Rito.

Perfume no ar!
Daliflor, jasmins?
Inebriado se entrega,
o corpo a girar, girar...
Derviche Apaixonado,
esse é o seu estado.

Mil e uma noites acontecendo assim,
entre exóticos camelos, marfins,
dunas, tamareiras,
tapetes voadores,
galáxias de flores
e a música das esferas
na terra do sem fim.

O que antes fora o encanto do reencontro,
inexorável desejo,
agora é a criação do mundo,
prazer absoluto,
nirvana do beijo.

Pouse leve, vibre suave,
palavras são mantras,
pensamentos são vibrações...
no éter... no... éter...
no eterno ... terno... ter.


POETA SOU


Se sou poeta, não posso afirmar,
Sei que canto ao acordar,
Sei que suspiro do te olhar,
Sei que peço a Deus, tua alma guardar,
Sei que choro se te vejo sofrer e nada posso fazer.

Disseram que ao amar, poetas nos tornamos,
e o coração impertinente, exige trilha sonora
ao luar , sonhando, sonhando feliz,
que em clima de happy End , viverá!!
...Eu amo você, poeta sou!!

[Poemas] "Aurea Abensur" (Orinho).

A HORA DO ENCONTRO

É chegada a hora do encontro!
A ânsia da espera se faz viva
Em minh'alma!
Meu corpo também te espera!
Enfim...

O nos olharmos nos olhos vai acontecer
Será um reencontro?
Será um reconhecimento?
O cosmo me responde que sim!
Estou aqui, somente a tua espera
Meu ser clama por esse instante!



A NOITE


O nascer da noite,trazendo luzes e sombras,
fazem meu coração fortemente pulsar.
Abrem-se as portas do tempo
e o vento como que canta
e me encanta com seu leve soprar.

Ouço na lembrança tua voz e cerro os olhos,
vejo ao longe teu semblante a me mostrar
com veracidade no olhar, que ainda podemos amar.

Enlevo-me à tua presença,
aos teus abraços e sinto o poder te ver, te tocar.
Só à noite meu amor,
tem o poder de apaziguar minh'alma.

Quando ela vem, sinto que somos
o que queremos ser, apenas nós!
Salvador, num outono da vida...
AMADO AMIGO.

[Poemas] "Anna Amélia"

O PENSAMENTO E O SENTIMENTO


O amor e a razão, não se acertam...
que o amor não tem razão....
e a razão nem sempre tem amor...

Se o amor...é inimigo da razão,
que fazer, quero amar..e quero ter razão..
quem quer não ter razão?
viver sem amor, é morrer..
viver sem razão..é enlouquecer?

Quero sim viver..com amor e paixão..
tenho mesmo razão de querer viver..
com amor e paixão..
que viver pra valer a pena,
tem que ser com tesão...
então..o que fazer?

Se ninguém consegue cavalgar dois cavalos..
se ninguém consegue servir a dois senhores

Acho que descobri um caminho,
ah! sim...vou colocar o pensamento,
a serviço de meus sentimentos...
e nunca, nunca deixar de amar....



ADÁGIO DO AMOR



Quando finda o dia, e começa a escurecer,
a gente se espanta com a beleza
das sombras chegando,
empurrando a luz para o outro lado do mundo.

É preciso fazer-se escuro, para de novo alvorecer....
mas para que não fiquemos abandonados,
na completa escuridão, pintam lusinhas faiscantes
como brilhantes, para mais nos admirarmos
até luar pode acontecer, para que sonhemos

todos os sonhos de amor

É no banho de luar, que meu corpo arrepia,
minh´alma suspira....procurando meu amor...
Eis que a escuridão já invadiu tudo..

Até meu pensamento..Bate aquela solidão,
pois escuridão rima com solidão,
e meu corpo treme, minh´alma geme,
procurando meu amado...

Só ele pode salvar-me da solidão...

Acontece um toque de sino....

Logo vários repicam.. Presto atenção,.

O luar me ilumina, trazendo a alegria
da presença ausente de meu amor..

Ouço o vento dizendo que não estou só....

Posso sentir que meu amado se faz presente,
fica poderoso na força de nosso amor!

[Poema] "Angela Lara"

SÓ PRA TE DIZER...


Meu Amigo,
de tanto sonho quebrado,
estou aqui para te dizer
que descobri o segredo das águas...
elas são turvas,
tanto quanto a ilusão.

Posso te procurar por todas as estradas,
mas foges da minha visão...
gostaria apenas que não tivesses
medo da verdade,
já passamos desta fase.
Sei também que não tenho escrúpulos ao te dizer tão claramente:

- TE AMO

e isto intimida...

Perdoe-me!!!!

Já vivi muito tempo para omitir isto.

Hoje, pensando sobre tudo,
depois de mais um dia vazio,
supondo que estejas bem.
e clamando por tua felicidade,
tuas realizações,
me encontro aqui,
repetindo a mesma oração
que clamei sobre teu corpo...

És muito importante para mim,
para estar de qualquer jeito,
mas sei que nem isto queres saber,

É estranho não enlouquecer,
mais estranho ainda
é não saber calar este coração insano.

Estou aqui e estarei sempre,
torcendo por ti,
sabendo que tudo o que eu sinto
é puro demais para esta realidade
e aliás, o que já falamos,
não existe dentro da esfera...

Nós dois juntos,
somente numa outra era...

por enquanto nesta, EU TE AMO!!!

[Poemas] "Andréa Borba Pinheiro"

DESFAÇO


Desfaço agora, todos os laços que antes nos uniam.
Os papéis, estão todos amassados,
os lábios que antes sorriam,
agora gritam desbocados.

Me desfaço do abraço,
do olhar que me cobria,
do carinho escasso,
que tu me oferecias.

Desfaço as palavras de amor que te lancei,
desfaço o nó que atava nossas almas,
desfaço tudo, pois de você, nada sei,
e vou seguir em frente com calma.

Desfaço as frases de ternura que escrevi,
desfaço os poemas que um dia te dei,
desfaço tudo, pois sou melhor sem ti,
desfaço tudo, pois amor, eu não te amei.

TOQUE


Sensível, leve, quase não percebo,
deslizando pelas curvas do meu rosto,
arrepiando minha pele,
despindo-me de medo.

Antes hesitava...nunca o fazia.
Timidamente aproximei-me,
não o bastante para tocar-te
mas, se ao menos eu tentasse...

Como reagirias? Que dilema!
Sorririas? Afastaria-me? O que farias?
Amo-te!
Não confunda-me!

Um dia a vergonha dissipou-se
dando espaço ao sentimento
que fluiu lindamente...
E toquei sua face, banhei-me em contentamento!...

SE ME PERGUNTARES


Se me perguntares se amei,
direi que sim!
Acreditava que pudesse dar certo,
não enxergava o fim.

Se me perguntares se odiei,
direi que não.
Teus lábios beijei, teu sentimento toquei.
Detestaria machucar-te, não sou sem coração.

Se me perguntares se gostei,
direi que sim.
Não foi "eterno, posto que é chama",
mas foi "infinito enquanto durou".

Se me perguntares se ainda quero,
digo que não.
Pois o coração é cego,
mas o meu orgulho não!

[Poema] "Acredite Em Seus Sonhos..."

Acredite Em Seus Sonhos...
Clicia Pavan

Quando o sonho florir
Não o impeça de se realizar
Vá em frente !
Não recue diante
Do que poderá viver.

Sonhe sempre,
Mas nunca permaneça na ilusão.
Siga em frente com toda força,
Faça do seu coração seu guia.
Em todos os momentos
Mantenha sempre a esperança.

Quando todas as coisas disserem
não a um sonho seu,
Demonstre que quem vive por um ideal
O alcançará.

Não desista nunca,
Não tenha medo de ser feliz.
Sonhe, pois quando se luta,
Sonhar vale a pena.

O sonho é uma conquista do dia-a-dia
e não uma ilusão de quem sabe sonhar.

[Poema] "Meu Sonho de Amor"

MEU SONHO DE AMOR
Clicia Pavan


As vezes sem querer,
me vejo cantando,
sonhando com um mundo
feito só pra nos dois...

Vejo meu sonho no céu,
vejo nossos desejos
como pirilampos que surgem
brilhando rompendo véus...

Sinto uma ternura suave trazida
pelo vento que balança as flores,
que baixinho me fala de amor....

Sussurros de uma paixão
sinto toda magia da sedução,
sinto vontade de te abraçar,
de sentir você perto de mim...

Sinto vontade de te fazer um carinho...

Fecho meus olhos nessa hora tremula
de desejo louca por um beijo...

Penso:

Ah! meu amor quero seguir
tua estrada de ...

Quero acordar ao teu lado,
E nos teus braços encontrar a paz...

Quero que meu sonho de amor vire realidade,
quero te amar de verdade ...

[Poesias] "VIVER"

"VIVER"
Clicia Pavan

Viver, não é doar um pouco...
É doar sempre.
Não é apenas suportar a ofensa...
É esquecê-la.
Não é compadecer...
É ajudar, mesmo que isso se torne incômodo.

Viver, não é simplesmente sorrir...
É mais do que isso, é fazer alguém sorrir.
Viver, não é medir sua ajuda...
É ajudar sem medir.
Não é ajudar somente quem está perto,
mas estar sempre perto para ajudar.

Quem realmente vive e ama,
Não faz o que pode...


FAZ O IMPOSSÍVEL.

Viver é sempre dizer aos outros
que eles são importantes,
Que nós os amamos,
porque um dia eles se vão e ficamos com
a nítida impressão de que não
os amamos o suficiente.

V I V A . . .

Ame as pessoas ao seu redor,
diga-lhes o quanto elas significam para você,
perceba que a felicidade é uma coisa tão simples,
que você pode alcançá-la num só gesto,
desde que esse gesto transmita tudo de bom que existe em você,
desde que signifique SINCERIDADE.
Desde que demonstre AMOR
.

20 Dezembro 2006

[Poemas] " Celso Brito "

Meninice

Ah se eu morresse de amor!
Que bonito seria!...
Meu nome, nome de rua.
Meu busto, busto de praça.
Meu coração, amuleto da sorte.

E as moças de nascimentos distantes
- amores mais distantes ainda -
carregadas de flores para o meu funeral.

Os casais e os amantes das noites,
mentindo para uma estrela distante,
na qual puseram o meu nome.

Ah se eu morresse de amor!
Só que sem medo, sem dor,
sem aviso prévio, durante o sono.
E durante pouco tempo.



Noturno

Me cresce da alma feito praga
desdém do dia inútil,
que me sorrir da janela
onde dormem trepadeiras.

O meu Crio em Deus Pai
- que não creio -
rezo ante a beleza
imutável dos altares,
edificados sobre mim.

Copio olhares sem nomes,
ausentes ao momento lírico.
O poema se esfarrapa no ar de horrores.
Um carro cruza sobre mim, a avenida.



Variações do Terceto I

Distante, um vaqueiro
tange o gado.
Mistura-se ao mugido.

Na mira dum caçador
um coelho se esconde...
Sem sorte!

O desenho da fumaça
projeta paz,
atrás do cigarro.

Enclausurado na rocha,
o inseto.
Protege seu veneno.

Cão no borralho,
na sombra um burro.
Coisas nossas!

Mato seco na estrada
Fim da colheita
Pássaros no paiol

Embaixo da mata
corre o riacho.
Desviando-se das pedras.

Seca... cigarra
Vida... vento
Casas vazias

Inútil. A mosca tenta
sem sucesso,
ultrapassar o vidro.

Candeias acesas
Toalhas brancas
Ninguém à mesa



Variações do Terceto II


Pipa solta no horizonte
Linha<------ ----->partida
Brincadeiras do vento

Fim de tarde em Belém.
Chuva de periquitos
na copa das mangueiras.

Um cavalo vigia na sobra
o breve sono do vaqueiro.
É meio dia na fazenda.

Move o dia lento...
Deixa imóvel meu pensamento,
na palha do coqueiro, sem vento.

Chove em Macapá.
Gotas perpendiculares,
na linha do equador.

Imaginário possível:
meu verso convexo transborda.
Água da última chuva.

Galope de burro na estrada.
O bater de asas das rolas pardas,
abrindo passagem.

Revoada no cajueiro
Fim do dia. Silencia.
Periquitos no poleiro.

Chuva na copa da mata.
Vento brincando na estrada,
rouba-me o chapéu.

[Poema] "Da torre de vigília"

Celso Brito


Esse vaga-lume aceso em volta de nós.
Esse olho que espreita nosso gozo,
do fundo escuro do seu tempo.
Esses quintais.
Esses quartéis.
Essas ladeiras.
Esse sol queimando a pele.
O que mais nos resta?

O segredo e a descoberta.
Damos qualquer resposta.
E subimos ao altar,
e nos despimos,
diante dos olhos estarrecidos das imagens,
Nosso nu,
nosso desgraça.
Tamanha desordem...
Os deuses dentro de nós.

No teu olhar um brilho frio de metal.
O vinho tinto que derrama
nos degraus de marfim.
O céu de acrílico que cai
da arquitetura de néon.
E o manto de estrelas que fica
não te acompanha no teu ir.

Um soar descompassado de sino nos anuncia.
E cobre de luto,
o que seria um novo amanhecer.

[Poema] "Antítese"

Celso Brito


Na exatidão
sou a distância maior
entre dois pontos distintos

No sonho
sou o medo daquele
que está sempre acordado
a espreitar o inimigo

Na vida
sou o saltimbanco
que apresenta seu espetáculo
para uma platéia entorpecida

No filme
sou a cena de ação
onde morre o mocinho

Na fuga
sou a distância que separa
o ataque da presa

No amor
sou a semelhança cômica
entre a careta do orgasmo
e a agonia da morte

Na noite
sou a prostituta sem nome
de sexo carnudo
servido a todas

No beijo
sou a boca de homem
com lábios fortes
apertando a alma
sem sentimentos

Na hipótese
sou a dúvida
que desmente a tese
e mantém o problema

No fim
serei poeta
para poder tudo outra vez.

[Poema] "O Nascer das Criaturas"

Celso Brito


Chove, uma neblina perfumada.
Gota a gota escorre,
por entre lábios e pernas.
O sol despeja raios solertes
na pele rósea.
Erguem-se da grama as criaturas.
E a noite cobre o nu
que a natureza contempla.

A aurora encontra vestígios,
que denunciam a partilha.
O tempo segue as pegadas
e fecunda no vão da carne
um pequeno grão de vida.
Cumpre-se a gestação
e da carne irrompe pujante espiga.
Repousa agora o corpo frutificado.

[Poema] "Um certo sertão"

Celso Brito


Contra o mar e a seca, só o sonho.
Nenhuma reflexão cabe a esse fato.
Todas são aflições da alma.

Existe um abismo entre a lágrima e a sua ausência.
Por isso há os que choram,
os que esperam a beira do caminho
e os que cruzam horizontes em busca da brisa.

É inútil esperar pelo mar.
A terra seca sob os pés separa dois mundos.
E essa onda sempre volta,
sem nunca ultrapassar os limites da areia.

O oceano, que daqui um dia se foi, não volta mais.
Fugiu com os navios no caminho do vento,
levando os homens e o coração das mulheres.

Resta essa paciente espera,
mesmo quando não há mais o que esperar.
Sendo assim, não cabe a mim encerrar a história;
embora acredito que queira saber como isso termina.

Um viajante de longe foi quem me disse
da inútil lágrima no mar-oceano.
Ela nada resolve, nada acrescenta ao seu volume.
Mas quem ama sempre volta... acredita no mar.

[Poema] "Cárcere destino"

Celso Brito.


Quando a tive sob meu julgamento,
condenei-me pelo crime que havia no olhar.

Seus gestos de quase nunca
denunciaram a culpa.
a minha?...
a dela?...

- Desconhecida era a pena.

Ordenei-lhe a fuga.
Resistiu, pois sabia de mim.

Vieram as perguntas.
As fiz em outro tempo
em resposta ao seu corpo.

- Desconhecido também era o tempo.

Conjugavam-se o ontem e o agora,
o futuro ainda não existia.

Confessei os feitiços,
o arder das chamas,
o verbo aliciado pela carne desde o princípio.

A mim não coube recurso. Culpado.
Mantive-me prisioneiro do cárcere destino,
sob vigília,
para evitar a fuga.

Quando a tive sob meu julgamento,
condenei-me ao eterno amar.

13 Dezembro 2006

[Poema] "O Que Mais Dói"

Patativa do Assaré


O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.

Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.

O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.

É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.

[Poema] "Seu Dotô Me Conhece?

Patativa de Assaré.

Seu dotô, só me parece
Que o sinhô não me conhece
Nunca sôbe quem sou eu
Nunca viu minha paioça,
Minha muié, minha roça,
E os fio que Deus me deu.

Se não sabe, escute agora,
Que eu vô contá minha história,
Tenha a bondade de ouvi:
Eu sou da crasse matuta,
Da crasse que não desfruta
Das riqueza do Brasil.

Sou aquele que conhece
As privação que padece
O mais pobre camponês;
Tenho passado na vida
De cinco mês em seguida
Sem comê carne uma vez.

Sou o que durante a semana,
Cumprindo a sina tirana,
Na grande labutação
Pra sustentá a famia
Só tem direito a dois dia
O resto é pra o patrão.

Sou o que no tempo da guerra
Contra o gosto se desterra
Pra nunca mais vortá
E vai morrê no estrangêro
Como pobre brasilêro
Longe do torrão natá.

Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasil ficá mió;
Mas o Brasil continua
Na cantiga da perua
Que é: pió, pió, pió...

Sou o mendigo sem sossego
Que por não achá emprego
Se vê forçado a seguí
Sem direção e sem norte,
Envergonhado da sorte,
De porta em porta a pedí.

Sou aquele desgraçado,
Que nos ano atravessado
Vai batê no Maranhão,
Sujeito a todo o matrato,
Bicho de pé, carrapato,
E os ataques de sezão.

Senhô dotô , não se enfade
Vá guardando essa verdade
Na memória, pode crê
Que sou aquele operário
Que ganha um nobre salário
Que não dá nem pra comê

Sou ele todo, em carne e osso,
Muitas vez, não tenho armoço
Nem também o que jantá;
Eu sou aquele rocêro,
Sem camisa e sem dinhêro,
Cantado por Juvená.

Sim, por Juvená Galeno,
O poeta, aquele geno,
O maió dos trovadô,
Aquele coração nobre
Que a minha vida de pobre
Muito sentido cantou.

Há mais de cem ano eu vivo
Nesta vida de cativo
E a potreção não chegou;
Sofro munto e corro estreito,
Inda tou do mermo jeito
Que Juvená me deixou.

Sofrendo a mesma sentença
Tou quase perdendo a crença,
E pra ninguém se enganá
Vou deixá o meu nome aqui:
Eu sou fio do Brasil,
E o meu nome é Ceará.

[Estudo] "Patativa do Assaré"

Relações entre Estética, Hermenêutica, Religião e Arte
[Por:] Cristiane Moreira Cobra

Resumo

Este trabalho é fruto de uma pesquisa bibliográfica e teórica sobre a poesia de Patativa do Assaré; constata que o discurso poético constituído em sua obra aponta para elaboração de uma forma de contestação e resistência diante das desigualdades vivenciadas pelo seu grupo, que toma por referência a religiosidade cristã popular. Como elementos dessa poética resistente ressaltamos a memória, a oralidade, a ressignificação de conceitos instituídos pela ortodoxia da Igreja, bem como a abordagem de temas pertinentes aos membros desse grupo. A interpretação analítica dos poemas tem como referências a teoria literária de Alfredo Bosi. Patativa recorre ao imaginário religioso cristão católico como fonte de sentido e significado, revelando formas típicas à Cultura Popular de compreensão da religiosidade.

Palavras-chave: Patativa do Assaré; Ressignificação; Hermenêutica; Resistência.

Abstract
This article is the result of a bibliographic and theoretical research about Patativa do Assaré´s poetry. It ascertains that the poetical discourse present in his work indicates the elaboration of contention and resistance concerning the inequality lived by his group, which uses the popular Christian religiosity as reference. The memory, orality, re-signification of concepts instituted by the Church´s ortodoxy as well as the approach of pertinent themes to the members of this group are emphasized as elements of his resistent poetry. The analytical interpretation of the poems is based on the literary theory of Alfredo Bosi. Patativa makes use of the Christian Catholic religious imaginary as source of sense and meaning. He reveals to the popular culture typical forms of understanding the religiosity.

Key words: Patativa do Assaré; Re-signification; Hermeneutics; Resistance.

1. Introdução

A Literatura Popular, rica em seu macrocosmos variado de autores, temas e obras, revela-se também riquíssima no microcosmo de cada um de seus autores, sendo hoje amplamente reconhecida e divulgada na pessoa do poeta Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, personagem chave do panteão nordestino[1]; homem do sertão, agricultor pobre que passou por poucos meses de contato com o aprendizado escolar e que é considerado aqui sob o signo de poeta e artesão da linguagem[2], autor de uma obra consistente e reconhecida, emblemática da Literatura Popular nordestina[3] e nacional. Sua poética marcada pela oralidade constitui-se como voz que posteriormente fez-se letra[4]; foi, originalmente um artesão da palavra falada, narrador performático de improvisos versificados numa linguagem matuta.

Neste estudo, situamos resumidamente o contexto do poeta e de sua Literatura Popular, como se constitui seu discurso poético, sua estética e sua hermenêutica populares, além dos elementos de resistência e contestação presentes na poética de Patativa, como ele descreve e dialoga com a religiosidade popular e como reelabora o conceito de Divina Providência. Patativa recorre ao imaginário religioso cristão católico como fonte de sentido e significado; entretanto revela-se sua elaboração popular de tais elementos como presença marcante da religiosidade do povo nordestino e brasileiro. Conforme o aporte teórico de Alfredo Bosi, é preciso debruçar-se sobre a obra do poeta, iluminando-a sob a luz da história da consciência humana, que não é estática e nem mesmo homogênea.[5] Considerar o contexto do poeta, sua relação com a História Geral, bem como a história particular imanente e operante em cada um de seus poemas; repensando o conceito de historicidade dessa obra poética, derrubando cronologismos apertados e relacionando poesia e sociedade.

Segundo Alfredo Bosi, o poema é uma expressão poliédrica, herdada e inventada, pela qual o poeta enfrenta a rotina retórico-ideológica da sociedade usando livremente instrumentos da própria tradição e é preciso reconhecer o sim e o não em todas as coisas.[6] Nosso objetivo é, a partir da palavra poética, compreender as relações entre produção literária, religiosidade, imaginário e cultura; para então: aprofundar o conhecimento a respeito da obra poética de Patativa do Assaré, compreender as formas populares de reelaboração e ressignificação do imaginário católico e discutir a hipótese de que a poesia de Patativa e seus elementos da Cultura e Religiosidade Popular caracterizem fator de resistência.

Se todo discurso revela uma forma de ver o mundo e de interpretá-lo, pois através da palavra atribuímos sentido e significado a esse mundo, no caso do discurso poético de Patativa o sentido é dado pela relação com a natureza e com a religiosidade popular, que é o ponto focal de nosso interesse. Sob a ótica das Ciências da Religião, aprofundar a análise dessa obra, possibilita ampliar o conhecimento sobre a Literatura Popular no Brasil, enquanto manifestação artística, e suas relações com a religiosidade e a cultura.

Segundo Foucault, a Linguagem constitui teias de significado que operam em todos os âmbitos da vida.[7] Roland Barthes afirma que a fala se constitui como uma forma de organização pessoal e implica sempre em exercício de poder.[8] Sendo a Literatura Popular, uma Linguagem própria que evoca significados e também caracteristicamente oral (fala), deve considerar-se que, portanto implica exercícios de poder. O principal autor tomado como referência teórica é Alfredo Bosi, principalmente por sua consideração (conceituação) da poesia como uma forma de resistência; ele afirma que o poeta é caracterizado como o doador de sentido, mas que no mundo moderno ocorre uma cisão, restando à poesia o papel de aguçar a consciência dessa contradição do sentido, pois não se integra mais aos discursos correntes na sociedade. De acordo com Bosi, o poema pode ter o papel de acender no homem, ou de revelar, o inconsciente desejo de uma outra existência, mais livre e mais bela e, sendo assim, a poesia traduz em sons e símbolos essa realidade pela qual ou contra qual vale a pena lutar.

2. Contexto de uma poética: Literatura de Folhetos Nordestina
Segundo Márcia de Abreu, a Literatura de folhetos Nordestina pode ser considerada uma das expressões populares mais brasileiras que existem, marcadamente comuns na região Nordeste e naquelas regiões que abrigam os migrantes de origem nordestina. Com as grandes navegações aportaram no Brasil trovadores e artistas populares, que trouxeram em sua bagagem cultural o que alguns consideravam ser as origens dessa literatura, porém no Brasil a Literatura Popular desenvolveu temáticas próprias e hoje ultrapassa um século de história.[9] Trata-se de uma Literatura dinâmica e flexível, que atinge os mais diversos temas, com objetivos múltiplos e vasta divulgação e aceitação social, tanto em meios populares, como nas elites acadêmicas. O folheto é um veículo popular de participação na vida do país, que permite ao povo debater a realidade, expressar suas necessidades e aspirações.[10] Apesar de serem impressos, no entanto, os folhetos caracterizam-se por sua tradição oral, suas marcas de oralidade e o fato de serem feitos para serem declamados, lidos ou cantados em voz alta para um grande número de pessoas, mesmo as analfabetas; características comuns às culturas que valorizam a oralidade, segundo Paul Zumthor.[11]

No Brasil, infelizmente, a Literatura Popular em verso foi, por muitos anos, mal compreendida e interpretada, excluída dos estudos oficiais de literatura, permanecendo em desconhecimento por longo período. Como principais motivos da demora no reconhecimento e inclusão dessa modalidade literária nos estudos oficiais, Joseph M. Luyten levanta alguns problemas históricos como a introdução tardia da imprensa no país, que foi o último das Américas a dispor desse recurso, e a excessiva imitação de modelos estrangeiros pela intelectualidade.[12] O início dessa manifestação literária no Brasil remonta a fins do século XIX e conta hoje com maciça bibliografia crítica e uma vasta produção de folhetos e autores que constituem um panorama das influências dessa poética popular em nossa cultura.

A questão da especificidade da produção dessa Literatura no Brasil, mais especificamente no Nordeste do país, toma corpo com a nova hipótese explicativa levantada pela pesquisadora Márcia Abreu que propõe um confronto entre o Cordel português e a Literatura de Folhetos Nordestina visando, a partir da apresentação da trajetória histórica e da comparação dos textos, discutir a independência entre essas duas formas literárias.[13] A autora aponta para o equívoco da hipótese de uma associação ou decorrência entre Literatura de Cordel portuguesa e Literatura de Folhetos do Nordeste brasileiro; questiona ainda o uso do termo Literatura Popular como sinônimo de cordel, já que tanto os autores quanto o público dessa literatura não pertence exclusivamente às camadas populares.[14] Através de um esmiuçado levantamento do trajeto histórico do Cordel português, Márcia conclui pela completa ausência de unidade dessa produção, que inclui textos em verso, em prosa, de gêneros variados, produzidos e consumidos por camadas amplas da população, não somente as populares.[15] Salienta ainda que a possível característica de uniformidade dessa produção não inclui o texto, nem os autores e nem mesmo o público; somente a materialidade do cordel, sua aparência e seu preço.[16]

A longevidade de um corpus literário é, quase sempre, maior do que a do suporte gráfico por meio do qual é divulgado; isso ocorreu da mesma forma com o romanceiro popular nordestino, que já existia muito antes da imprensa em folhetos.[17] A base de subsistência do romanceiro popular nordestino, anteriormente ao registro escrito no século XIX, constituía-se pela conjunção entre memória e oralidade; sendo que os primeiros manuscritos compunham os cadernos pessoais de poetas, com versos próprios e de grandes mestres, que podiam ser vendidos ou trocados eventualmente.[18] A Literatura Popular Nordestina constitui um corpus específico, não pelo formato gráfico dos folhetos, mas por sua especificidade de gênero literário construído na e pela oralidade conjugada à memória. A principal característica que garante especificidade aos Folhetos Nordestinos é a rigidez de regras quanto à rima, à métrica e à estruturação do texto, sendo que essas regras são conhecidas pelos autores e também pelo público; e como afirma a pesquisadora Márcia Abreu, essa rigidez da forma parece ser uma criação brasileira, já que em Portugal não existe essa uniformidade nas produções.[19]

Patativa, por sua vez, nasce, cresce e se torna poeta em meio a essas influências referentes à rima, métrica e oração características desse corpus literário nordestino, traduzindo em seus versos características de repentista, cantador, autor de improvisos livres ou baseados em motes, além de produzir também poemas encomendados, com temática definida, e, posteriormente aos tradicionais folhetos, publicar inúmeros livros, gravar LPs, entrevistas no rádio e na televisão e fazer ecoar sua poesia através de diversos mídia.

3. Antonio: o despertar do poeta Patativa
Antônio, como era chamado o poeta, segundo filho do casal de agricultores Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva, nasceu no dia 5 de março de 1909 e viveu sua meninice no sítio dos pais, distante três léguas da vila de Assaré, ao sul do Ceará; vivenciando desde menino as agruras do trabalho com a terra no nordeste seco.[20] Na época o estado do Ceará contava com oitenta e dois municípios, dos quais vinte e oito cidades e cinqüenta e quatro vilas; Assaré era uma dessas vilas desde 1865, quando se desmembrou de Saboeiro.[21] É interessante salientar que Assaré, etimologicamente, significava atalho, antigo desvio do caminho das boiadas dos Inhamuns para o Piauí[22]; e também para o poeta Patativa seria um atalho para o mundo, um acesso rápido à universalidade da experiência humana da existência.

Nas biografias do poeta, é marcantemente narrado o infeliz fato de sua cegueira, decorrente da combinação de duas doenças que o acometeram por volta de um ano de idade, segundo alguns pesquisadores, ou até por volta dos quatro anos segundo outros[23]. A seqüela, apesar de marcada pela negatividade, acabou sendo posteriormente associada a características de outros grandes poetas, entre os quais Homero e o violeiro cego Aderaldo; ou associada a Camões pelo próprio Patativa. O mundo do menino Antônio era a Serra, Serra de Santana, na qual o lazer era contemplar a paisagem e brincar com os cinco irmãos, além do constante trabalho na roça; em sua memória da infância, porém, impregnou-se a visão performática de violeiros e versejadores repentistas, os quais presenciou ainda criança e almejou um dia aventurar-se a imitar.[24]

Apesar da visão bucólica de sua própria infância, as análises constituídas sobre o poeta e sua obra revelam indícios da forte influência do mundo adulto na formação de sua personalidade, o trabalho precocemente presente e o pouco contato com crianças de sua idade corroboraram a construção dos sentidos e valores de sua vida e, conseqüentemente, de sua poética. Sem determinar por completo ou delimitar diretamente caminhos pré-concebidos unicamente pela tradição, Patativa revela sua individualidade ao reelaborar essa visão adulta do mundo e transcrevê-la em sua poética, sem, contudo, negar sua infância.[25] Seu período de freqüência escolar foi mínimo, apenas alguns meses, segundo ele próprio, quando já tinha doze anos; aprendeu usando os livros de Felisberto Rodrigues Pereira de Carvalho; adiantou-se na leitura dos livros, que deveriam ser usados durante dois anos, mas foram facilmente devorados em meses, abrindo acesso à cultura escrita para o sagaz leitor.

Patativa vive um período de mudanças dos oito aos dezesseis anos, durante o qual começa a fazer poesias antes de ser alfabetizado e a cantar viola antes de ter seu próprio instrumento, interessa-se pelos folhetos, mas não sabe ler ainda, arrisca versos enquanto brinca de caçadas com bodoque. Alguns pesquisadores consideram essa fase de hesitações coincidente com o momento em que Patativa ganha sua própria viola, de presente de sua mãe, e passa a entusiasmar-se com as cantorias e convites para apresentações.[26] Pesquisadores como Gilmar de Carvalho consideram que a vocação poética de Patativa teve origem já na infância, no lazer de contemplação da natureza, bem como nas participações de leituras coletivas de folhetos de cordel, de ponteios de viola e de pelejas[27]; a partir dessas experiências contemplativas da beleza, natural e cultural, descobriu a possibilidade da criação própria e do improviso de versos.

4. Versos: estética, ética e hermenêutica, a arte no sertão
Percebemos nos poemas de Patativa a constituição de um eu-poético esteta contemplativo que admira a natureza e percebe o mundo através dos sentidos, revelado em versos como os que se seguem:

ABC NEM BEABÁ
no meu livro não se incerra.
O meu livro é naturá
é o má, o céu e a terra,
cum a sua imensidade.
Livro cheio de verdade,
de beleza e de primô,
tudo incadernado, iscrito
pelo pudê infinito
do nosso Pai Criadô.[28]

Inúmeros outros poemas de Patativa confirmam sua admiração contemplativa pela natureza, sua percepção do livro da natureza, considerando sempre a autoria divina desse registro de beleza e verdade.

Paralelamente a um eu-poético hermeneuta intérprete do mundo que o traduz numa linguagem poética popular, apresentando significados próprios para realidade vivida, como percebemos nos versos a seguir:

CANTE LÁ, QUE EU CANTO CÁ
Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
(...)
Você é munto ditoso,
Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu gozo,
Que eu canto meu padecê.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.
Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e de oro,
Para a gente sertaneja
É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito,
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.
(...)
Canto as fulô e os abróio
Com todas coisa daqui:
Pra toda parte que eu óio
Vejo um verso se bulí.
Se as vez andando no vale
Atrás de curá meus male
Quero repará pra serra,
Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.
Mas tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E nosso verso também(...)[29]

Em sua hermenêutica popular, o poeta reinventa os modos de ser do povo sertanejo nordestino, propõe novos modos de viver e ordena través de sua linguagem poética todas as coisas e o mundo; na fluidez de seus versos doa sentidos à realidade.

Além desses, Patativa revela um eu-poético artista que percebe, reinterpreta e cria, experimentando a emoção estética de produzir sentido e fazer de todo e qualquer objeto, um objeto artístico, como no trecho do poema que segue

O INFERNO, O PURGATÓRIO E O PARAÍSO
Pela estrada da vida nós seguimos,
Cada qual procurando melhorar,
Tudo aquilo, que vemos e que ouvimos,
Desejamos, na mente, interpretar,
Pois nós todos na terra possuímos
O sagrado direito de pensar,
Neste mundo de Deus, olho e diviso
O Purgatório, o Inferno e o Paraíso.
Este Inferno, que temos bem visível
E repleto de cenas de ternura, (sic)
Onde nota-se o drama triste horrível
De lamentos e gritos de loucura
E onde muitos estão no mesmo nível
De indigência, desgraça e desventura,
É onde vive sofrendo a classe pobre
Sem conforto, sem pão, sem lar, sem cobre.
(...)
Mas acima é que fica o Purgatório,
Que apresenta também sua comédia
E é ali onde vive a classe média.
Este ponto também tem padecer,
Porém seus habitantes é preciso
Simularem semblantes de prazer,
Transformando a desdita num sorriso.
E agora, meu leitor, nós vamos ver,
Mais além, o bonito Paraíso,
Que progride, floresce e frutifica,
Onde vive gozando a classe rica.
Este é o Éden dos donos do poder,
Onde reina a coroa da potência.
O Purgatório ali tem que render
Homenagem, Triunfo e Obediência.
Vai o Inferno também oferecer
Seu imposto tirado da indigência,
Pois, no mastro tremula, a todo instante,
A bandeira da classe dominante.
(...)
Já mostrei, meu leitor, com realeza,
Pobres, médios e ricos potentados,
Na linguagem sem arte e sem riqueza.
Não são versos com ouro burilados,
São singelos, são simples, sem beleza,
Mas, nos mesmos eu deixo retratados,
Com certeza, verdade e muito siso,
O Purgatório, o Inferno e o Paraíso.[30]


Percebemos nesses trechos de versos, como em muitos outros poemas de Patativa, a valorização da vida, restauração de valores humanitários, da religiosidade e de uma consciência crítica diante da realidade inóspita de nossa sociedade desigual; para além da importância artística e criativa desse poeta do sertão, a universalidade de sua poética se deve certamente ao conteúdo ético presente em seu discurso.

5. Considerações finais
Segundo Alfredo Bosi, a linguagem poética é um dos aspectos da Literatura sobre o qual pesa, ainda mais, o caráter de complexidade e de múltiplas relações de interdependência com o contexto histórico. Segundo ele, a poesia não se integra nos discursos correntes da sociedade[31], permanecendo sob formas estranhas e sobrevivendo mesmo nesse meio hostil; afirma ainda que a poesia pode representar resistência sob variadas formas, seja através de sua forma mítica, de um lirismo de confissão ou de sátira, paródia, utopia.[32]

Bosi supõe vários caminhos de resistência poética, entre os quais o da poesia mítica[33] como aquela que responde ao presente ressacralizando a memória como base da infância recalcada, na qual as figuras da infância e da tradição assumem sentido encantador, proporcionando o reencontro do adulto com o mundo mágico da criança. E, ao deparar-nos com versos de Patativa, como não reconhecê-lo um, também, poeta mítico que proporciona o encontro com o mundo mágico da criança nordestina?[34] Como poesia mítica, a obra de Patativa se enquadra, pois recupera figuras e sons[35], faz-se poesia da natureza e da saudade, revelando o poeta como uma consciência que se volta para aquilo que não é, ainda, consciência[36]; ao falar da natureza, das plantas[37] e dos bichos como o Jumento [38], dos maquinários, das ferramentas[39], de algum pássaro ou outro animal[40], Patativa se mostra um representante dessa poesia mítica, marcada pela resistência ao tempo do domínio e do cálculo no qual vivemos.[41]

Através da definição de poesia sátira, épos revolucionário e poesia utópica[42] propostas também por Alfredo Bosi, é possível analisar e perceber também afinidades com a poética de Patativa do Assaré. Nessa linhagem da poesia, segundo o autor, o modo de resistência preferido é o ataque, no qual o poeta-profeta busca atingir diretamente as circunstâncias de seu momento[43], vivendo uma constante tensão, recusando seu presente e, apresentando através da imagem e do desejo, uma invocação ao futuro aberto de possibilidades.[44] Patativa como poeta-profeta revela em seus versos o agora, de seu tempo, mas move-se na direção do ainda não, como antecipação do novo tempo, de um futuro utópico.[45] No entanto, somente o contexto da obra poética pode ajudar-nos a decifrar se essa crítica- sátira é conservadora ou realmente revolucionária, se essa palavra poética clama ao passado ou ao futuro; e qual a relação proposta entre recusa e utopia.[46]

Segundo Bosi, o lugar de onde se move uma autêntica sátira-crítica constitui-se como um topos negativo, caracterizado pela recusa aos costumes, à linguagem e ao modo de pensar corrente.[47] E, nesse ponto exatamente, como não identificar de imediato a poesia de Patativa como um discurso que ecoa a partir de um topos negativo?; que critica novos costumes e valoriza a moral tradicional, que se coloca numa linguagem totalmente própria e singular como representante de um grupo ou classe definida e que recusa o modo de pensar e agir correntes em seu tempo e crê num novo tempo. Nos diversos poemas de Patativa é possível notar características desse topos negativo, seja ao comentar de modo crítico os costumes modernos, que contrariam a moral tradicional, seja através de sua linguagem matuta, marcada pela oralidade, ou ainda ao criticar diretamente o modo de pensar de seus contemporâneos, através da poesia.

A forma de contestação que transparece na poética de Patativa varia, desde manifestações de uma poesia mítica e de uma sátira crítica, até culminar em uma poesia utópica e profética; relevante para a reflexão a que se propõe esse estudo, no entanto, é considerar que todas essas variantes presentes na obra poética de Patativa traduzem certa resistência através do discurso. Sendo resistência um conceito originariamente ético e não estético, segundo Alfredo Bosi, adotar esse termo exige-nos certa cautela; a resistência na narrativa, segundo Bosi, comumente surge como tema ou como processo inerente à escrita.[48] Em Patativa, a resistência revela-se nos temas, bem como na tessitura da escritura de seus poemas, no uso da linguagem como demonstração e valorização de uma condição de classe. Intuição e desejo fundamentam a arte poética de Patativa sem, entretanto, inibirem a força cognitiva de sua compreensão de mundo e de sua vontade ética, extremamente consciente dos critérios da realidade sertaneja e dos ditames da coerência entre sua condição de sertanejo e de sua libido de poeta. Enfocar os elementos de resistência incutidos na poética de Patativa implica considerar um objeto estético sob aspectos éticos; fruto da libido artística que envolve intuição e desejo a poesia enquanto discurso traduz em si também uma visão de mundo baseada em certos valores e princípios éticos.

Bibliografia
ABREU, Márcia de. Histórias de cordéis e folhetos. Campinas: Mercado das Letras/Associação de Leitura do Brasil, 1999.

ANDRADE, Cláudio Henrique Sales. Patativa do Assaré: as razões da emoção (capítulos de uma poética sertaneja). Fortaleza: Editora UFC / São Paulo: Nankin Editorial, 2003.

ASSARÉ, Patativa do. Aqui tem coisa. São Paulo: Hedra, 2004.

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: Filosofia de um trovador nordestino. 8ª ed., Petrópolis: Vozes/Crato: Fundação Pe. Ibiapina, 1992.

ASSARÉ, Patativa do. Ispinho e fulô. Fortaleza, Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto/Imprensa Oficial do Ceará, 1988.

ASSARÉ, Patativa do. Patativa do Assaré: uma voz do Nordeste. Int. e seleção Sylvie Debs, São Paulo: Hedra, 2000.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3ª ed.,Coleção Elos, São Paulo: Editora perspectiva, 2002.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. 6ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré. 3ª ed., Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001.

CURRAN, Mark J. História do Brasil em Cordel. 2ª ed., São Paulo: EDUSP, 2003.

DIÉGUES JR, Manuel e outros. Literatura popular em verso: estudos. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: EDUSP/Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.

FEITOSA, Luiz Tadeu. Patativa do Assaré: a trajetória de um canto. São Paulo: Escrituras Editora, 2003.

FOUCAULT, Michel. As Palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad.: Salma Tannus Muchail, 8ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 1999.

HELENA, Raimundo Santa. Raimundo Santa Helena. Introdução e seleção: Bráulio Tavares, São Paulo: Hedra, 2003. (Biblioteca de Cordel)

MENEZES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico: Poesia e política em Chico Buarque. 2ª edição, São Paulo: ATELIÊ EDITORIAL, 2000.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Tradução de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: EDUC, 2000.

Notas
[*] Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP.

[1] ASSARÉ, Patativa do. Patativa do Assaré: uma voz do Nordeste, 2000.
[2] Signo atribuído ao cantor e intelectual Chico Buarque por MENEZES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico – Poesia e política em Chico Buarque, p.17.
[3] Interessante distinção entre cordel e literatura popular nordestina é elaborada na obra de ABREU, Márcia de. Histórias de cordéis e folhetos, 1999.
[4] Visando compreensão dos conceitos de performance, letra e voz, leitura introdutória da obra de ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura, 2000.
[5] BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia, 2000, p.13.
[6] Idem, p.15.
[7] FOUCAULT, Michel. As Palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas, 1999.
[8] BARTHES, Roland. O prazer do texto, 2002.
[9] ABREU, Márcia de. Histórias de cordéis e folhetos, 1999.
[10] Visando ampliação dos conhecimentos a respeito do Cordel e do poeta Patativa, como leitura introdutória, indico as obras:
CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré. 3ª ed., Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001.
CURRAN, Mark J. História do Brasil em Cordel. 2ª ed., São Paulo: EDUSP, 2003.
DIÉGUES JR, Manuel e outros. Literatura popular em verso: estudos. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: EDUSP/Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986
[11] ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Trads. Jerusa Pires Ferreira, Suely Fenerich. São Paulo: EDUC, 2000.
[12] Afirmações encontradas no prefácio de Joseph M. Luyten à obra de ASSARÉ, Patativa do. Patativa do Assaré uma voz do nordeste, 2000.
[13] ABREU, Márcia de. Histórias de cordéis e folhetos, p.12.
[14] Idem, p.22-23.
[15] Ibidem, p.46.
[16] Ibidem, p.48.
[17] HELENA, Raimundo Santa. Raimundo Santa Helena, p.30.
[18] Idem, p.31.
[19] ABREU, Márcia de. Histórias de cordéis e folhetos, p.108.
[20] Informações colhidas em diversas de suas biografias, entre as quais no livro de ANDRADE, Cláudio Henrique Sales. Patativa do Assaré: as razões da emoção (capítulos de uma poética sertaneja), 2003, p.25.
[21] CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré, p.10.
[22] Idem, p.11
[23] Ibidem, p.13.
[24] Ibidem, p.14.
[25] FEITOSA, Luiz Tadeu. Patativa do Assaré: a trajetória de um canto, 2003, p.100.
[26] ANDRADE, Cláudio Henrique Sales. Patativa do Assaré: as razões da emoção (capítulos de uma poética sertaneja), p.31.
[27] CARVALHO, Gilmar de. Patativa do Assaré. p.14-15.
[28] ASSARÉ, Patativa do. Ispinho e fulô, 1988, p.67.
[29] ASSARÉ, Patativa do. Cante lá, que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino, p.25-29.
[30] ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: Filosofia de um trovador nordestino, pp.43-47.
[31] BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. 6ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.165.
[32] Idem, p.166.
[33] Ibidem, p.174.
[34] Ibidem, p.176.
[35] Ibidem, p.179.
[36] Ibidem.
[37] Poemas como “Eu e o Sertão”, “O paraíso do Crato”, “A festa da natureza” e “A terra é Naturá” contidos na obra de ASSARÉ, Patativa do. Cante lá, que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino, 1992.
[38] Poemas como “Meu caro jumento” e “O Burro”, contidos na mesma obra citada anteriormente.
[39] Poemas como “Minha impressão sobre o trem de ferro” e “Minha vingança”, contidos na obra de ASSARÉ, Patativa do. Aqui tem coisa, 2004. E também os poemas “Ingém de Ferro” e “O puxadô de roda”, contidos na obra de ASSARÉ, Patativa do. Cante lá, que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino, 1992.
[40] Poemas como “O Vim-vim”, “O Pica-Pau”, “Vaca Lavandeira”, “O Sabiá e o Gavião”, contidos também na mesma obra.
[41] BOSI, Alfredo. O Ser e o Tempo da poesia, 2000, p.181.
[42] “A sátira e, mais ainda o épos revolucionário são modos de resistir dos que preferem à defesa o ataque. (...) O poeta-profeta que, em vez de voltar as costas e perder-se na evocação de idades de ouro, revela-se e fere no peito a sua circunstância”. BOSI, Alfredo. O Ser e o Tempo da poesia, 2000, p.187.
[43] Poemas como “Menino de rua”, “Melo e meladeira”, “Meu avô tinha razão e a justiça tá errada”, “Reforma agrara é assim”, “O bode de Miguel Boato e o efeito da maconha” contidos na obra de ASSARÉ, Patativa do. Aqui tem coisa, 2004.
[44] BOSI, Alfredo. O Ser e o Tempo da poesia, p.187.
[45] Idem, p.188.
[46] Ibidem, p.189.
[47] Ibidem, p.191.
[48] Ibidem, p.120

12 Dezembro 2006

[Poesias] "Simplicidade" & "Sou"


Luiz Carlos Amorim


Algumas Poesias


"Simplicidade"



Gosto das coisas simples:
de um sorriso de criança,
de um rio de águas claras,
de flores, campos e praças.

Gosto de você.
De acordar com o seu beijo,
de você ser minha musa,
de dizer-lhe "eu te amo",
assim, de maneira simples,
descomplicada e sincera.

Gosto de ser menino,
arquitetar artes, zangá-la,
amar você, criatura,
fazendo as pazes depois.

Gosto de café quente,
um cigarrinho, uma pinga,
e gosto do seu sorriso
tão singelo de menina.

Não gosto de solidão.
Gosto da sua companhia,
na noite quente ou fria,
na tarde de chuva ou sol.

Não rimou?
Pois eu gosto de poesia,
seja com rima ou sem ela.
E gosto mais de você,
meu poema mais bonito...




Luiz Carlos Amorim




"SOU"


Sou assim inquieto,
irrequieto, indócil,
romântico, atrapalhado,
simples tal qual criança.
Sou um aprendiz da vida,
do amor e da esperança.
Saudade é dever de casa...
Sou qual garoto precoce,
com pressa em ser gente grande;
sou qual adulto, crescido,
desejando ser criança.
Sou poeta, amante, amado,
sou mais que eu, simplesmente;
sou tantas vidas a um tempo,
dentro e fora de mim,
que me divido em mais eus.
Sou pequenino, sozinho,
mas sou grande,
muito grande,
com alguém
a me esperar...


{Poesia] "Vem, Primavera"

Luiz Carlos Amorim


Vai embora, inverno,
leva contigo o frio,
a solidão, a saudade
e deixa vir a primavera
vestir a terra de flores,
de verde, vida e cores.

Vem, primavera:
contigo renasce a vida,
brota de novo a poesia,
renova-se a esperança.

Vem, primavera:
lança sobre nós o sol,
raio de luz, força e cor,
essência de vida de nós,
pequenos filhos da terra.

Vem, primavera:
abra sorrisos, corações,
botões e céu.
A festa da vida recomeça
e eu te festejo, primavera.

[Poesia] "Primavera"

Luiz Carlos Amorim


A primavera chegou...
O mundo vestiu-se de flores,
A vida enfeitou-se de cores,
A gente encheu-se de amores...

É primavera!
A vida sorrindo,
Música ao vento,
Poesia no ar.
É primavera!

[Poesia] "Outra Vez Primavera"

Luiz Carlos Amorim


Ele veio com a primavera,
Como um raio de sol
Passeando pelo meu jardim,
Com ramos secos no bico,
Pequeno arquiteto da natureza.

Com ele, as cores da primavera
Chegaram a minha casa,
Floriram o meu jardim,
Encheram meu coração.

E o pequeno arquiteto
Construiu o seu ninho
No meio do meu jardim,
Entre dálias e orquídeas.

Um passarinho, avoante pequenino,
Fez ninho no meu jardim.
A primavera fez morada em minha casa.
O amor fez ninho em meu coração...

[Poesia] "A Paz Que Eu Quero"

Luiz Carlos Amorim

Pra que a guerra?
Pra que revolta,
ódio, dor, ganância?
Eu quero a paz,
serenidade, amor,
quero asas povoando o céu...
Quero crianças correndo em meu caminho,
quero ouvir risos em todos os lugares,
quero sorrisos no rosto do irmão...
A paz, ah, a paz...
Não vá embora, amiga escorraçada.
Fica um pouquinho mais...
Inda há crianças por aqui,
anjos pequeninos,
brancos, negros, amarelos, pardos,
anjos que te têm nas asas,
como pássaros em liberdade
andando pelo chão
para depois voar...
Vem que eu te quero, paz.
Não deixe que eu morra pelo ódio,
não importa quando eu vá.
Quero morrer com uma flor na mão,
na outra mão um toque de criança
e nos olhos um sorriso teu...
Sorriso de vitória por estar aqui,
amiga paz, até que eu vá
e até depois que eu tenha ido...
Pois há de haver,
mesmo que eu não esteja mais aqui,
pássaros no céu, crianças pelo chão,
flores a desabrochar e corações abertos.
Paz,
teu tempo é sempre,
teu lugar é aqui!

10 Dezembro 2006

[Poesia] "A Samaritana"

Na Samaria, enquanto os companheiros
foram suprir a bolsa de alimentos,
Jesus, parou de andar dias inteiros,
propôs-se repousar alguns momentos.


Sentou-se o Nazareno ao pé da fonte,
O sol brilhava em raios refulgentes.
Havia ali um poço ao pé do monte,
que Pai Jacob legara aos descendentes.


Foi a mulher samaritana ali,
para tirar da linfa deliciosa.
Ao ver de pronto, o vulto do Rabi,
ficou assim um tanto receosa.


Pois quem seria o tal desconhecido,
de tão sublime olhar, tão lindo aspecto,
que ali estava a cismar, tão recolhido,
assim tão majestosamente quieto?


O Mestre ao vê-la, deu-lhe a perceber
que tinha sede e disse, em tom bondoso:
“¾ Mulher: se queres, dá-me de beber,
pois vai o dia muito caloroso.”


Ela, mirou-o mais. Depois, por fim,
um tanto embaraçada, respondeu:
“¾ Pois como pedes de beber a mim?
Eu sou samaritana e Tu judeu ...?


“¾ Se escutasses a voz mais interior
e julgasses de modo mais profundo,
saberias que Eu sou distribuidor,
da Água da Verdade neste mundo.


E se tivesses visto o dom de Deus
e fosse tua consciência mais ativa,
saberias quem sou entre os judeus,
e tu Me pedirias Água Viva!”


“¾ Água Viva? ... Mas é tão fundo o poço,
que não podes cumprir esse desejo ...
Se a não podes tirar deste colosso,
onde tens, pois, a água, que não vejo?


Maior que Pai Jacob, és porventura?
Ele nos deu o poço no passado
e todos tem bebido com fartura,
o líquido que é sempre renovado ...”


Mas disse-lhe Jesus, todo bondade:
“¾ Quem bebe desta água, Eu te asseguro,
por mais que beba e beba a saciedade,
terá contínua sede no futuro.


Esta que Eu dou, porém, é que sacia;
e não se tira de qualquer cisterna.
Quem dela bebe, é fonte que irradia,
emana a água para a vida eterna.”


“¾ Senhor! ¾ disse a mulher ¾ dá que Tu dás
eu beberei agora alegremente.
Assim, não terei sede e terei paz
sem ter que vir aqui constantemente.


“¾ Pois vai então chamar por teu marido,
¾ disse o Rabi ¾ e vem aqui depois.
Assim, não ficará como esquecido,
e do que Eu der a ti, darei aos dois.”


Marido? ... Mas ... e um súbito rubor
roçou-lhe o rosto. Mas, com certo empenho,
algo nervosa, respondeu: “¾ Senhor!
Não poderei chamar o que não tenho.”


E, sentenciou, Jesus, profetizando:
“¾ Numa verdade pura Me disseste.
Não é teu quem contigo está morando.
Maridos ... sei que cinco já tiveste ...”


“¾ Senhor! Tu és profeta! Tu és profeta!
¾ Exclamou a mulher admirada ¾
pois como dás sentença tão correta,
sobre coisa que eu não Te disse nada?


Diz-me, então alguma coisa mais:
onde adorar a Deus? Aqui ou além?
Neste monte conforme nossos pais,
ou lá na capital, Jerusalém?”


¾ Ouve-me bem, mulher, ¾ disse o senhor ¾
Trago Comigo histórico momento.
Os que procuram luz e puro amor,
adorarão o Pai em pensamento.


Deus é o espírito da humanidade,
A mais pura e perfeita adoração,
sejam feita em Espírito e Verdade,
com um altar em cada oração.


“¾ Espera-se o Messias, bem o sei.
¾ disse a mulher, buscando assunto novo. ¾
é o Cristo que há de vir. E será Rei.
E tudo ensinará ao nosso povo.”


“¾ Por hoje ¾ Ele lhe disse ¾ vou findar
De nada mais precisas depois disto.
Procura neste momento recordar.
Eu que falo contigo ... Sou o Cristo!



Livro: Flores de Outono -Autor: Jesus Gonçalves

[Poesia] "A Prece"

Anthero de Quental


Sob o guante da treva, o Homem gemia:
- Senhor, a carne é a minha sepultura!
Por que a jornada tormentosa e escura
Em que sofro o rigor da ventania?

Padeço, errante, a imensa noite fria
De aflição, desconforto e desventura...
Alivia-me as chagas de amargura,
Socorrendo-me a senda de agonia!...

Respondeu-lhe o Senhor: - Espera e ama!
Receberás do Céu Sublime Chama
Para a angústia revel que te domina!

E deu-lhe a Prece por brilhante estrela.
Desde então, o Homem, forte e calmo, ao tê-la,
Seguiu da sombra para a Luz Divina.



Chico Xavier
(Livro – Estrelas no Chão)

[Poesia] "Ano Bom"

Auta de Souza

Hoje começa o ano. Na alegria
De nívea pomba quando nasce a aurora,
Deixa, minh’alma, a tua fantasia
Subir, cantando, pelo espaço a fora...

Deixa-a sumir-se além, rompendo gazas,
Subindo em busca de ideais queridos:
Há de trazer nas pequeninas asas
Todo o perfume dos meus dias idos!

Há de trazer o sonho transparente
Da inocência feliz (quanto eu sonhava!)
E o eco virginal da voz dolente
Que o meu sono de arcanjo acalentava.

E o meu sorriso e as minhas esperanças,
Essas ingênuas ilusões de um dia,
Toda essa luz que as almas das crianças
Num raio de luar acaricia...

Que tudo venha sobre mim cantando
O salmo doce da recordação.
Qual se pousesse um luminoso bando
De passarinhos no meu coração
...

[Poesia] "Alegria de Servir"

Olhar de carinho e de paz,
Que a todos acalma e refaz.
Das lutas e das dores da vida,
Ninguém saía sem uma palavra amiga.

Transmitia a alegria que sentia,
De poder servir e ajudar.
Via em cada ser um irmão e um cultivador,
Que ontem plantou e hoje tem que ceifar.

Sabia que a imperfeição é transitória,
E tudo fazia para que a paz fosse vitoriosa.
Com palavras de esperança sempre soerguia,
Aquele irmão que na estrada caía.

Esse cultivador de cândido olhar,
de sementes de amor sempre a espalhar.
A todos sorrindo, sempre a ajudar,
de operosa existência, sempre a trabalhar.

Verdadeiro exemplo a ser seguido,
Cumpriu com louvor a sua missão.
Levou o amor e a paz ao mundo,
Com o seu coração de criança.

Genuíno discípulo do Cristo,
Que pelo exemplo edificou as almas.
Cheio de luz e de amor,
Chico sempre foi um benfeitor.

Como ninguém soube pelo exemplo ensinar,
que a vida é semeadura que nos compete realizar
Plantando sempre o amor e a esperança
conseguiu deixar em todos sua lembrança.

Viva o Chico,
Todos gritam na espiritualidade.
Pela volta à verdadeira pátria,
De quem foi servidor de verdade.

Servidor fiel da caridade de Jesus.


Grupo Espírita Fraternidade de Mogi das Cruzes.
Um amigo oculto.

[Poesia] "Agitação"

Nosso irmão Silva Teixeira
Pediu-nos fraternalmente
Dar-lhe atenção e assistência
Na viagem que faria em visita ao pai doente.

Não vacilamos no assunto,
Fui ao nosso diretor:
- “Algum apoio ao amigo?
Vai, sim!... – nos disse o mentor.”

Encontrei-me com Teixeira
Junto à esposa Dona Alcina,
Num ônibus que largava.
Vencendo a chuva mofina.

A máquina em movimento
Formava rajadas frias...
A viagem do casal
Seria apenas dois dias.

Às onze da noite em ponto,
Com biscoitos a granel,
A dupla desceu, entrando
Em velho e pequeno hotel.

A luz se fez no aposento
Que lhes fora reservado...
Acomodaram-se os dois,
Deitando-se, lado a lado.

Instantes depois, um grito
Ressoava estranho e feio...
Dona Alcina retirara
Uma barata do seio.

Teixeira não descansou,
Pois a esposa reclamava,
Xingando a roupa do hotel,
Em pranto se lastimava.

No outro dia, Teixeira
Observou, tristemente,
A morte rondando a casa
Na face do pai doente.

À noite, foi novo trampo;
Dona Alcina, num berreiro,
Clamava que muitas pulgas
Mordiam-lhe o corpo inteiro...

Gritava, humilhando o esposo:
- “Não tens o berço que julgas,
Esta casa em que nasceste
É um pardieiro de pulgas...”

Manhã seguinte, o irmão Silva
Encomendou condução,
Voltariam para casa,
Sem qualquer baldeação.

Chegaram ao lar, à noite;
Dona Alcina, muito ativa,
Falava: - “Agora estou salva!
Agora, sim, estou viva...

Nem pulgas e nem baratas,
Quero somente o que é meu,
Bendita seja esta casa,
A casa que Deus me deu...

Meu sogro? Que Deus o cure,
Não tomarei nova estrada,
Desejo a paz do meu canto...
Tranqüilidade e mais nada.”

Mas passadas duas horas,
A pobre rolou no chão,
Seguindo para o hospital,
Picada de escorpião!...

Jair Presente
Livro: Ponto De Encontro
(Psicografia Francisco Cândido Xavier)

[Poesia] "Abençoa Senhor"

Auta de Souza


Abençoa, Senhor esta Casa singela,
Onde a luz do Evangelho esplende, soberana,
E onde encontra guarida a imensa caravana
Dos tristes corações que a prova desmantela.

Neste pouso de paz onde a fé nos irmana,
Em torno do ideal que ao mundo se revela,
A Caridade é sempre atenta sentinela,
Estendendo os seus braços à penúria humana.

Neste recanto amigo, à margem do caminho,
Ninguém procura em vão o conforto e o carinho,
Cansado de bater, chorando, porta em porta...

Porquanto a Tua voz na voz de quem ensina,
A mensagem de amor da Celeste Doutrina,
A renovar no bem a vida nos exorta!...

[Poesia] "A espera"

Eliza Desidério César Bento
(Campinas, 6 de agosto de 2001)

Em lembrança de minha mãe Solange
A espera é constante
É excitante
É radiante
A espera de alguém que não chega
A espera de um amor
A espera da chegada
A espera de sua noiva
Sua mais nova companheira
A espera de sua no vida
A espera de nove meses
É a espera mais pura e mais bela da felicidade
É a espera do milagre da vida
Só que tem a espera mais triste do mundo
A espera do descanso eterno
Pode ser numa cama
Pode ser numa cadeira de rodas
Pode ser até em uma felicidade
Lá naquele quarto alguém espera seu
Descanso eterno
Pessoas choram no corredor desesperadamente
Na espera de um milagre eterno.

[Soneto] "Amor e humildade"

Nós viveremos, universo em fora,
Trazendo dentro d’alma a vida acesa
No ritmo da luz da Natureza,
Que é a eterna vibração da eterna autora.
A dor, somente a dor nos aprimora,
Nos caminhos da prova e da aspereza,
Elevando a nossa alma na grandeza
Da grande claridade redentora.


Somos os lutadores peregrinos,
Sonhando pela estrada dos destinos,
Um castelo de paz, ventura e glórias.
Sabemos do passado envolto em ruínas
Que a luz do amor e as rudes disciplinas,
São as chaves das últimas vitórias.

Raul de Leoni
(Soneto psicografado por Chico Xavier em 1936)

[Poesia] "Sertaneja"

Triste,
Magra,
Solitária,
Acompanhada apenas pela fome e a dor.

Mulher frágil mas forte
No seu chorar,
no seu avançar,
Pela estrada poeirenta.

Seus pés descalços,
Rachados,
são como o solo estorricado,
sem verde.

Você tem raízes nos pés.
Nas veias altas,
As pernas marcadas,


Mas o ventre sempre fértil,
a desafiar a fome.
Você olha o céu sem nuvens
E traz nuvens no seu olhar.

Maltrapilha,
Com braços finos mas fortes,
Bastantes para embalar
Seus filhos na rede,

No colo,
junto ao coração que teima em esperar
A chuva
A água amanhã

Nas lutas da sua vida,
Mulher destemida e sofrida,
Eu admiro a sua força.

Mulher mãe.
Cidadã da fome e da dor,
Que coloca seus filhos no mundo
E com suas mãos tece a cruz,

Ao devolvê-los ao berço-terra,
Na cruz da sua dor.
Eu louvo suas lutas inglórias,
Mas um dia lhe será concedida


A alegria de mergulhar as mãos
Na água pura
Que a alma liberta se inunda de luz,
Matar sua sede de amor,

Num amor maior.
Sacrifício ainda lhe pedem,
E nos seus olhos tristes,
Você agradece as migalhas

Que lhe chegam dos que muito possuem.
Você ama,
Você perdoa
O solo ingrato

E ainda sente
Gratidão e amor.
Sertaneja, Imagem da dor,
Que lhe abençoe nosso senhor.


Cecília Meireles
Mensagem recebida por Shyrlene Soares Campos, no núcleo Servos Maria de Nazaré, dia 25/09/1999.

07 Dezembro 2006

Em Cada Sentimento Meu

de Roger Jones

Em cada sentimento meu...
Tem um espírito ateu...
E uma alma reencarnada...
Um orgulho plebeu...
E uma nobreza calada...
Uma certeza nítida...
Em eterna dúvida...
Um cruel bandido...
E um anjo perdido...
Um livro aberto...
E um segredo guardado...
Um futuro incerto...
Num instante passado...
Um destino certo...
E um projeto abandonado...
Em cada sentimento meu...
Tem um sentido...
E um rumo inexistente...
Um desejo contido...
E um medo persistente...
Uma vontade que desiste...
E uma esperança que existe...
Um desencanto...
E um contentamento...
Um amigo santo...
E um demônio atento...
Uma inteligência sólida...
E ingenuidade...
Uma demência mórbida...
E serenidade...
Em cada sentimento meu...
Tem uma contradição...
E uma lógica sem chão...
Um desânimo juvenil...
E um desabafo senil...
Uma harmonia...
Em confusão...
Uma agonia...
E uma razão...
Um colapso vulcânico...
E a calma de um lago...
Um pânico...
E um afago...
Um verso doce e amargo...
Que se intrometeu...
Em cada sentimento meu...

Timedez

de Cecília Meireles

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
- e um dia eu me acabarei.

01 Dezembro 2006

Operação Prato

Veja ao lado esquerdo o link

28 Novembro 2006

Homenagem a "Guimarães Rosa"

João Guimarães Rosa
Fonte: http://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp (© Projeto Releituras Arnaldo Nogueira Jr)

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."





João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) a 27 de junho de 1908 e era o primeiro dos seis filhos de D. Francisca (Chiquitinha) Guimarães Rosa e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido por "seu Fulô" comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador de estórias.

Joãozito, como era chamado, com menos de 7 anos começou a estudar francês sozinho, por conta própria. Somente com a chegada do Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês, em março de 1917, pode iniciar-se no holandês e prosseguir os estudos de francês, agora sob a supervisão daquele frade.

Terminou o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena; em Belo Horizonte, para onde se mudara, antes dos 9 anos, para morar com os avós. Em Cordisburgo fora aluno da Escola Mestre Candinho. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del Rei, onde permaneceu por pouco tempo, em regime de internato, visto não ter conseguido adaptar-se — não suportava a comida.

De volta a Belo Horizonte matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães e, imediatamente, iniciou o estudo do alemão, que aprendeu em pouco tempo. Era um poliglota, conforme um dia disse a uma prima, estudante, que fora entrevistá-lo:

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

Em 1925, matricula-se na então denominada Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Segundo um colega de turma, Dr. Ismael de Faria, no velório de um estudante vitimado pela febre amarela, em 1926, teria Guimarães Rosa dito a famosa frase: "As pessoas não morrem, ficam encantadas", que seria repetida 41 anos depois por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras.

Sua estréia nas letras se deu em 1929, ainda como estudante. Escreveu quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego, significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929-1930, alcançando o autor seu objetivo, que era o de ganhar a recompensa nada desprezível de cem contos de réis. Chegou a confessar, depois, que nessa época escrevia friamente, sem paixão, preso a modelos alheios.

Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna, então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda em 1930, forma-se em Medicina, tendo sido o orador da turma, escolhido por aclamação pelos 35 colegas.

Guimarães Rosa vai exercer a profissão em Itaguara, pequena cidade que pertencia ao município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos. Relaciona-se com a comunidade, até mesmo com raizeiros e receitadores, reconhecendo sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por "seu Nequinha", que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido por Sarandi.

Espírita, "Seu Nequinha" parece ter sido o inspirador da figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo sertanejo, personagem de Grande Sertão: Veredas.

Diante de sua incapacidade de por fim às dores e aos males do mundo numa cidade que não tinha nem energia elétrica, segundo depoimento de sua filha Vilma, o autor, sensível como era, acaba por afastar-se da Medicina. Contribuiu também para isso o fato de o escritor ter que assistir o parto de sua mulher, pois o farmacêutico e o médico da cidade vizinha de Itaúna só terem chegado quando Vilma já havia nascido.

Guimarães Rosa, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, trabalha como voluntário na Força Pública. Posteriormente, efetiva-se, por concurso. Em 1933, vai para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Segundo depoimento de Mário Palmério, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa – "quase que somente a revista médica rotineira, sem mais as dificultosas viagens a cavalo que eram o pão nosso da clínica em Itaguara, e solenidade ou outra, em dia cívico, quando o escolhiam para orador da corporação". Assim, sobrava-lhe tempo para dedicar-se com maior afinco ao estudo de idiomas estrangeiros; ademais, no convívio com velhos milicianos e nas demoradas pesquisas que fazia nos arquivos do quartel, o escritor teria obtido valiosas informações sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930 existiu na região do Rio São Francisco.

Um amigo do escritor, impressionado com sua cultura e erudição, e, particularmente, com seu notável conhecimento de línguas estrangeiras, lembrou-lhe a possibilidade de prestar concurso para o Itamarati, conseguindo entusiasmá-lo. O então Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, após alguns preparativos, seguiu para o Rio de Janeiro onde prestou concurso para o Ministério do Exterior, obtendo o segundo lugar. Por essa ocasião, aliás, já era por demais evidente sua falta de "vocação" para o exercício da Medicina, conforme ele próprio confidenciou a seu colega Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de março de 1934:

Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre 'après avoir couché avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.

Antes que os anos 30 terminem, ele participa de outros dois concursos literários. Em 1936, a coletânea de poemas Magma recebe o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, sob o pseudônimo de "Viator", concorre ao prêmio HUMBERTO DE CAMPOS, com o volume intitulado Contos, que em 46, após uma revisão do autor, se transformaria em Sagarana, obra que lhe rendeu vários prêmios e o reconhecimento como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo. Os contos de Sagarana apresentam a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e criadores de gado, mundo que Rosa habitara em sua infância e adolescência. Neste livro, o autor já transpõe a linguagem rica e pitoresca do povo, registra regionalismos, muitos deles jamais escritos na literatura brasileira.

Em 1938, Guimarães Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. A superstição e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida. Ele acreditava na força da lua, respeitava curandeiros, feiticeiros, a umbanda, a quimbanda e o kardecismo. Dizia que pessoas, casas e cidades possuíam fluidos positivos e negativos, que influíam nas emoções, nos sentimentos e na saúde de seres humanos e animais. Aconselhava os filhos a terem cautela e a fugirem de qualquer pessoa ou lugar que lhes causasse algum tipo de mal estar.

Embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy. Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.

Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia: "Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um peso em minha consciência."

Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden, juntamente com outros compatriotas, entre os quais se encontrava o pintor pernambucano Cícero Dias, Ficam retidos durante 4 meses e são libertados em troca de diplomatas alemães. Retornando ao Brasil, após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, o escritor segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada, lá permanecendo até 1944. Sua estada na capital colombiana, fundada em 1538 e situada a uma altitude de 2.600 m, inspirou-lhe o conto Páramo, de cunho autobiográfico, que faz parte do livro póstumo Estas Estórias. O conto se refere à experiência de "morte parcial" vivida pelo protagonista (provavelmente o próprio autor), experiência essa induzida pela solidão, pela saudade dos seus, pelo frio, pela umidade e particularmente pela asfixia resultante da rarefação do ar (soroche – o mal das alturas).

Em dezembro de 1945 o escritor retornou ao Brasil depois de longa ausência. Dirigiu-se, inicialmente, à Fazenda Três Barras, em Paraopeba, berço da família Guimarães, então pertencente a seu amigo Dr. Pedro Barbosa e, depois, a cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel, mais conhecido por Hotel da Nhatina.

Em 1946, Guimarães Rosa é nomeado chefe-de-gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz.

Em 1948, o escritor está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana; durante a realização do evento ocorre o assassinato político do prestigioso líder popular Jorge Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria, de curta mas decisiva duração.

De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada. Em 1951 é novamente nomeado Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. Em 1953 torna-se Chefe da Divisão de Orçamento e em 1958 é promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo correspondente a Embaixador).

Guimarães Rosa retorna ao Brasil em 1951. No ano seguinte, faz uma excursão ao Mato Grosso. O resultado é uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. Segundo depoimento do próprio Manuel Narde, vulgo Manuelzão, falecido em 5 de maio de 1997, protagonista da novela Uma estória de amor, incluída no volume Manuelzão e Miguilim, durante os dias que passou no sertão, Guimarães Rosa pedia notícia de tudo e tudo anotava "ele perguntava mais que padre" –, tendo consumido "mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes", com anotações sobre a flora, a fauna e a gente sertaneja usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos, estórias...

Em ensaio crítico sobre Corpo de Baile, o professor Ivan Teixeira afirma que o livro talvez seja o mais enigmático da literatura brasileira. As novelas que o compõem formam um sofisticado conjunto de logogrifos, em que a charada é alçada à condição de revelação poética ou experimento metafísico. Na abertura do livro, intitulada Campo Geral, Guimarães Rosa se detém na investigação da intimidade de uma família isolada no sertão, destacando-se a figura do menino Miguelim e o seu desajuste em relação ao grupo familiar. Campo Geral surge como uma fábula do despertar do autoconhecimento e da apreensão do mundo exterior; e o conjunto das novelas surge como passeio cósmico pela geografia rosiana, que retoma a idéia básica de toda a obra do escritor: o universo está no sertão, e os homens são influenciados pelos astros.

Em 1956, no mês de janeiro, reaparece no mercado editorial com as novelas Corpo de Baile, onde continua a experiência iniciada em Sagarana. A partir de o Corpo de Baile, a obra de Rosa - autor reconhecido como o criador de uma das vertentes da moderna linha de ficção do regionalismo brasileiro - adquire dimensões universalistas, cuja cristalização artística é atingida em Grande Sertão: Veredas, lançado em maio de 56. O terceiro livro de Guimarães Rosa, uma narrativa épica que se estende por 600 páginas, focaliza numa nova dimensão, o ambiente e a gente rude do sertão mineiro. Grande Sertão: Veredas reflete um autor de extraordinária capacidade de transmissão do seu mundo, e foi resultado de um período de dois anos de gestação e parto. A história do amor proibido de Riobaldo, o narrador, por Diadorim é o centro da narrativa. Para Renard Perez, autor de um ensaio sobre Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, além da técnica e da linguagem surpreendentes, deve-se destacar o poder de criação do romancista, e sua aguda análise dos conflitos psicológicos presentes na história.

O lançamento de Grande Sertão: Veredas causa grande impacto no cenário literário brasileiro. O livro é traduzido para diversas línguas e seu sucesso deve-se, sobretudo, às inovações formais. Crítica e público dividem-se entre louvores apaixonados e ataques ferozes. Torna-se um sucesso comercial, além de receber três prêmios nacionais: o Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; o Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo; e o Paula Brito, do Rio de Janeiro. A publicação faz com que Guimarães Rosa seja considerado uma figura singular no panorama da literatura moderna, tornando-se um "caso" nacional. Ele encabeça a lista tríplice, composta ainda por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, como os melhores romancistas da terceira geração modernista brasileira.

Ainda que não publicasse nada até 1962, o interesse e o respeito pela obra rosiana só aumentavam, em relação à crítica e ao público. Unanimidade, o escritor recebe, em 1961, o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Ele começa a obter reconhecimento no exterior.

Em janeiro de 1962, assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, cargo que exerceria com especial empenho, tendo tomado parte ativa em momentosos casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete Quedas (1966). Em 1969, em homenagem ao seu desempenho como diplomata, seu nome é dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira Curupira, situado na fronteira Brasil/Venezuela. O nome de Guimarães Rosa foi sugerido pelo Chanceler Mário Gibson Barbosa, como um reconhecimento do Itamarati àquele que, durante vários anos, foi o chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras da Chancelaria Brasileira.

Em 1958, no começo de junho, Guimarães Rosa viaja para Brasília, e escreve para os pais:

Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos"... "Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas, na copa da alta árvore pegada à casa, uma tucaneira’, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida.

A partir de 1958, o autor começa a apresentar problemas de saúde e estes seriam, na verdade, o prenúncio do fim próximo, tanto mais quanto, além da hipertensão arterial, o paciente reunia outros fatores de risco cardiovascular como excesso de peso, vida sedentária e, particularmente, o tabagismo. Era um tabagista contumaz e embora afirme ter abandonado o hábito, em carta dirigida ao amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957, na foto tirada em 1966, quando recebia do governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência, aparece com um cigarro na mão esquerda. A propósito, na referida carta, o escritor chega mesmo a admitir, explicitamente, sua dependência da nicotina:

... também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias; daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais. Não repare.

É importante frisar também que, coincidindo com os distúrbios cardiovasculares que se evidenciaram a partir de 1958, Guimarães Rosa parece ter acrescentado a suas leituras espirituais publicações e textos relativos à Ciência Cristã (Christian Science), seita criada nos Estados Unidos em 1879 por Mrs. Mary Baker Eddy e que afirmava a primazia do espírito sobre a matéria – "... the nothingness of matter and the allness of spirit", negando categoricamente a existência do pecado, dos sentimentos negativos em geral, da doença e da morte.

Em 1962, é lançado Primeiras Estórias, livro que reúne 21 contos pequenos. Nos textos, as pesquisas formais características do autor, uma extrema delicadeza e o que a crítica considera "atordoante poesia".

Em maio de 1963, Guimarães Rosa candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera apenas 10 votos), na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição dá-se a 8 de agosto e desta vez é eleito por unanimidade. Mas não é marcada a data da posse, adiada sine die, somente acontecendo quatro anos depois, no dia 16 de novembro de 1967.

Em janeiro de 1965, participa do Congresso de Escritores Latino-Americanos, em Gênova. Como resultado do congresso ficou constituída a Primeira Sociedade de Escritores Latino-Americanos, da qual o próprio Guimarães Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias (que em 1967 receberia o Prêmio Nobel de Literatura) foram eleitos vice-presidentes.

Em abril de 1967, Guimarães Rosa vai ao México na qualidade de representante do Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, no qual atua como vice-presidente. Na volta é convidado a fazer parte, juntamente com Jorge Amado e Antônio Olinto, do júri do II Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo valor material do prêmio, é o mais importante do país.

No meio do ano, publica seu último livro, também uma coletânea de contos, Tutaméia. Nova efervescência no meio literário, novo êxito de público. Tutaméia, obra aparentemente hermética, divide a crítica. Uns vêem o livro como "a bomba atômica da literatura brasileira"; outros consideram que em suas páginas encontra-se a "chave estilística da obra de Guimarães Rosa, um resumo didático de sua criação".

Três dias antes da morte o autor decidiu, depois de quatro anos de adiamento, assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Os quatro anos de adiamento eram reflexo do medo que sentia da emoção que o momento lhe causaria. Ainda que risse do pressentimento, afirmou no discurso de posse: "...a gente morre é para provar que viveu."

O escritor faz seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras com a voz embargada. Parece pressentir que algo de mal lhe aconteceria. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro de1967, ele morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa), mal tendo tempo de chamar por socorro.

Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu tinha 59 anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literatura brasileira, Rosa começou a escrever aos 38 anos. O autor, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo.

BIBLIOGRAFIA:

- Magma (1936), poemas. Não chegou a publicá-los.

- Sagarana (1946), contos e novelas regionalistas. Livro de estréia.

- Com o vaqueiro Mariano (1947)

- Corpo de Baile (1956), novelas. (Atualmente publicado em três partes:

- Manuelzão e Miguilim,
- No Urubuquaquá, no Pinhém e
- Noites do sertão.)

- Grande Sertão: Veredas (1956), romance.

- Primeiras estórias (1962), contos.

- Tutaméia:Terceiras estórias (1967), contos.

- Estas estórias (1969), contos. Obra póstuma.

- Ave, palavra (1970) diversos. Obra póstuma.

Colaborações em jornais e revistas:

- Colaborou no suplemento "Letras e Artes" de A Manhã (1953-54), em O Globo (1961) e na revista Pulso (1965-66), divulgando contos e poemas.

Bibliografia sobre o Autor:

Bosi, Alfredo (org.). O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1994.

Faraco, C.E. & Moura, F.M. Língua e literatura.. São Paulo: Ática, 1996. v.3.

Holzemayr, Rosenfield Kathrin. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Ática, 1996. (Roteiro de Leitura).

Macedo, Tânia. Guimarãres Rosa. São Paulo: Ática, 1996. (Ponto por Ponto).

Perez, Renard. Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

Rosa, Vilma Guimarães. Relembramentos, Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

Santo, Wendel. A construção do romance em Guimarães Rosa. São Paulo: Ática, 1996.

Sperber, Suzi Frankl. Guimarães Rosa: signo e sentimento. São Paulo: Ática, 1996. (Ensaio).

Zilberman, R. A Leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Contexto, 1989.

Acervo:

- Os arquivos do autor, abrangendo o período de 1908 a 1971, com aproximadamente 12.000 documentos, foram adquiridos pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).

Homenagem ao Autor:

Museu Guimarães Rosa

Av. Padre João, 744
Cordisburgo - MG - Brasil
Fone: (0 XX 31) 715-1378
Agendar visitas: 3ª a dom., das 8h40min às 17h.

Versões:


1961/1967 - Publicação de "Buriti" ("Corpo de Baile", 1ª parte), "Les Nuits du Sertão" ("Corpo de Baile", 2ª parte), "Primeiras Estórias", pela Édition du Seuil; "Diadorim", pela Éditions Albin Michel, Paris - França.


Adaptações:

1969 - Publicação do livro "A João Guimarães Rosa" - (Gráficos Brunner), ensaio fotográfico de Maureen Bisilliat, com trechos de "Grande Sertão: Veredas". Curta de 09 minutos - Filmoteca da ECA / USP, direção de Roberto Santos - São Paulo (SP).

1975 - Adaptação dos contos "Corpo Fechado" (do livro "Sagarana"), direção de Lima Duarte, e "Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha" (do livro "Primeiras Estórias"), direção de Kiko Jaess, para o programa Teatro 2, da TV Cultura - São Paulo (SP)

1975 - Adaptação do conto "Sarapalha" (do livro "Sagarana"), direção de Roberto Santos, para Caso Especial, da Rede Globo - Rio de Janeiro (RJ).

1984 - Adaptação de "Noites do Sertão", direção de Carlos Alberto Prates Corrêa - Rio de Janeiro (RJ).

1985 - Adaptação de "Grande Sertão: Veredas" para minissérie da Rede Globo, direção de Walter Avancini - Rio de Janeiro (RJ).

1994 - Rio de Janeiro RJ - Adaptação para o teatro de "Grande Sertão: Veredas", direção de Regina Bertola, no Centro Cultural Banco do Brasil

1994 - Filme "A Terceira Margem do Rio", direção e roteiro de Nelson Pereira dos Santos, baseado em cinco contos do livro "Primeiras Estórias": "A Terceira Margem do Rio", "A Menina de Lá", "Os Irmãos Dagobé", "Seqüência" e "Fatalidade" - Rio de Janeiro (RJ).

23 Novembro 2006

.:: Ser Feliz ::.

(Ser Feliz - Fernando Pessoa)

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

.:: CUIDE BEM DO SEU AMOR ::.

(Cuide bem do seu amor - Herbert Vianna)

A vida sem freio me leva, me arrasta, me cega
No momento em que eu queria ver
No segundo que antecedo o beijo, a palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro, no instante em que desmoronou

Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz

Cuide bem do seu amor, seja quem for
Cuide bem do seu amor, seja quem for

E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se seu mundo for um mundo inteiro, sua vida, seu amor, seu lar
Cuide tudo que for verdadeiro, deixe tudo que não for passar

A vida sem freio me leva, me arrasta, me cega
No momento em que eu queria ver
No segundo que antecedo o beijo, a palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro, no instante em que desmoronou

Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz
Cuide bem do seu amor, seja quem for
Cuide bem do seu amor, seja quem for

E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se seu mundo for um mundo inteiro, sua vida, seu amor, seu lar
Cuide tudo que for verdadeiro, deixe tudo que não for passar

Cuide bem do seu amor, SEJA quem for.

13 Novembro 2006

Qué vê matuto humilhado é tá doente das partes
(Jessier Quirino)

No tronco do ser humano
Nos finá mais derradero
Tem uma rosquinha enfezada
Que quando tá inflamada
Incomoda o corpo intero.

Se tossir se faz presente
Se chorar se faz também
O cabra não pode nada
Com nada se entretém
Eu lhe digo meu cumpade
Não deseje essa maldade
Pra rosca de seu ninguém.

Não sei o nome da cuja
Desta cuja eu tiro o “ja”
O que resta é quase nada
Bote o “nada” na parada
Quero ver tu agüentar.

Eu lhe digo meu cumpade
Que é grande humilhação
Um cabra do meu quilate
Adoecido das parte
Fazer uma operação.

Não suportando mais dor
O meu ato derradeiro
Foi procurar um doutor
Do "Bocá do Arenguero".

Do Bocá do Arenguêro
Fejoero, Fiofó
Bufante, Frescó e Lorto
Apito, Brote e Bozó.

De Furico, Fedegoso
Piscante, Pelado e Boga
Fosquete, Frinfra e Sedém
Zuero, Ficha e Vintém
De Ás de Copa e de Foba.

De Oiti, Oi de Porco
Ané de Couro e Caguero
De Gira-Sol e Goiaba
Roseta, Rosa, Rabada
Boto, Zero e Mialhero.

De Nó dos Fundo e Buzeco
De Sonoro e Pregueado
Rabichol, Furo e Argola
Ané de Ouro e de Sola
Boca de Véia e Zangado.

Um doutô de Aro Treze
De Peidante e Zé de Boga
Que não aperte o danado
Nem deixe com muita folga.

Um doutô piscialista
Em Bocá da Tarraqueta
Doutô de Quinca e Dentrol
Zebesquete e Carrapeta.

Doutô de Rosca, Rosquinha
Tareco, Frasco e Obrom
Ceguinho, Butico e Zero
Tripa Gaitera e Fom-Fom.

Mialhero e Mucumbuco
Buraco, Broa e Boguero
For Ever, Cruaca, Urna
Gritadô, Frande e Fuero.

Cano-de-Escape e Pretinho
Rodinha, X.P.T.O.
Zerinho, Subiadô
Tripa Oca e Fiofó.

Um doutô de Helidório
Ou de Boca de Caçapa
Que não seja inimigo
Também não seja meu chapa.

Tratador de Canto Escuro
De Boréu ou de Cheiroso
De Formiróide e Alvado
De Parreco e de Manhoso.

De Chambica e Cibazol
Apolônio e Fobilário
Bilé, Brioco e Roxim
Fresado, Anilha e Cagário
Vaso Preto, Zé Careta
Olho Cego e Espoleta
Fuzil, Fioto e Fuário.

Não é doutô de ovário
É Doutô de Oriol
De Cá-pra-nós e Bostoque
De Futrico e de Ilhó.

De Culiseu e Caneco
Roscofe, Forno e Botão
De Disco, de Farinheiro
De Joli, Fundo e Fundão
De Quo-Vadis e Fichinha
Que não venha com gracinha
E que que não tenha dedão.

Um doutô de Zé de Quinca
Canal 2 e Cagadô
Buzina, Vesúvio e Cego
Federá e Sim-sinhô
Fagulhero e Zé Zoada
Rosquete, Fim de Regada...
...Eu só queria um doutor.

O doutô se preparou-se
Parecia Galileu
Aprumou um telescópio

Quem viu estrela fui eu
Ele disse arribe as perna
– Tenha calma, sonho meu
A partir daquela hora
Perante Nossa Senhora
Não sei o que sucedeu.

C’as força da humildade
Já me sinto mais milhó
Me desejo um anus novo
Cheio de verso e forró
Pros cumpade, com franqueza
Desejo grande riqueza:
Saúde no fiofó.

Padre Ciço Contra 007

Padre Ciço Contra 007
(Jessier Quirino)

...Meu nome é BOND, eu sou James Bond
Falou o agente sacando a mão.
Meu nome é CIÇO, eu sou Padre Ciço
Falou meu Padrim Padre Ciço Romão.
O mundo calou-se prestando atenção
Encontro danado que nunca se viu
Vi gente gritando - Puta que pariu!
Essas duas alma, são alma da boa
Caiu no momento chuvosa garoa
E tome mentira milagre e questão.

Vi Bond mostrando buraco de bala
Tinha mais de vinte no mei do pulmão
Faltavam três veias no seu coração
Mas ele guardava lá dentro da mala
O meu Padrim Ciço pegou a bengala
Meteu num buraco que logo fechou
Todo ferimento se cicatrizou
Surgiu um jumento da cor de ambulância
Puxando uma maca e naquela distancia
Com o tal detetive dali disparou.

A velha beata se estatelou
Com o baita milagre em pleno sertão
E meu Padrim Ciço ou Ciço Romão
Agora babando se abestalhou
Quando James Bond da maca pulou
Puxou um canhão de dentro do terno
Prendeu uma seca roubando um inverno
Jogou uma corda e a nuvem laçou
A seca covarde dali se pirou
Livrando a gente daquela inferno.

O meu Padrim Ciço se vendo por baixo
Daquela mentira que Bond aprontou
Pensou nos milagres que já milagrou
Pegou a bengala e foi pro riacho
Numa pescaria contando por baixo
Pescou três baleias e um tubarão
Um fole tocando xaxado e baião
Segundo o primeiro já foi de gonzaga
Uma vela acesa que nunca se apaga
Duzentas sardinhas e um pé de limão.
O agente secreto ficou assustado
Vendo uma baleia no mar do sertão
Puxou a fivela do seu cinturão
E feito um foguete pra cima e pro lado
Saiu flutuando no mei do roçado
Deu mais de mil tiros com seu mosquetão
Prendeu a volante salvou lampião
Matou coronel, feriu deputado
E um mar de corruto, correndo pro lado
Parou a roubança, salvou-se a nação.

Ai Padre Ciço botou um queixão
- Assim ta ca gota de tanta mentira !
Ai James Bond fez padre de mira
Ai Padre Ciço tacou-lhe um bufete
Pegou de surpresa zero zero sete
Os dois se atracaram zero zero oito
O padre tinhoso, mordido e afoito
Falou: - com mentira ninguém me ilude
Foi fazer milagre lá em Hollywood
Milagre pesado maior de dezoito.

Aí são outros 500

Aí são outros 500
Quando os matutos "matemáticam" uma jegaiada de burro, jerico ou jumento, misturando com um débito acumulado. (Jessier Quirino)

- Ihh! Roxim !!!
- Ihh! Roxim !!! (1)

- Se o burro é 190
E tu me deve 500
Fica 310
Pra somar com 700.
Os 500 desses 6
Com 200 lá dos 3
Os 9 por 700.

A tropa de vocês 2
Valendo 10.300
Pego 310
Ajunto com 700
Arredondando faz 1.000.
Eu lhe pago 9.000
Fico devendo 300.
Lhe pago 20 de 10!

-E os outros 100 Miréis?
-Aí são outros 500!


(1) Ihh! ROXIM !!! - Freio de voz para jumento.

20 Outubro 2006

Nunca em Amor Danou o Atrevimento
de Luís Vaz de Camões

Nunca em amor danou o atrevimento;
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.

Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São u'as ilusões que leva o vento.

Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.

Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.



Busque Amor Novas Artes, Novo Engenho
de Luís Vaz de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Ah... Se Sesse
de Zé da Luz

Se um dia nós se gostasse
Se um dia nós se queresse
Se um dia nós se empareasse
Se juntim nós dois vivesse
Se juntim nós dois morasse
Se juntim nós dois drumisse
Se juntim nós dois morresse
Se pro céu nós assubisse
Mas porém se acontecesse
De São Pedro não abrisse
A porta do céu
E fosse de dizer qualquer tolice.

E se eu me arreliasse
E tu cum eu insistisse
Pra que eu me arresorvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvez que nós dois ficasse
Tarvez que nós dois caisse
E o céu furado arriasse
E as virge toda fugisse

Vou-me Embora Pro Passado * (ouça - mp3 - 10Mb)
Jessier Quirino (prosa morena)
(Poema inspirado na leitura do livro Memorial de Marco Polo Guimarães, Edições Bagaço; em conversa antiga; e em outros poemas meus.)

Vou-me embora pro passado
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas "daqui, ó!"
Roy Rogers, Buc Jones
Rock Lane, Dóris Day
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros Vemaguet
Jeep Willes, Maverick
Tem Gordine, tem Buick
Tem Candango e tem Rural.

Lá dançarei Twist
Hully-Gully, Iê-iê-iê
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora pro passado.

No passado tem Jerônimo
Aquele Herói do Sertão
Tem Coronel Ludugero
Com Otrope em discussão
Tem passeio de Lambreta
De Vespa, de Berlineta
Marinete e Lotação.

Quando toca Pata Pata
Cantam a versão musical
"Tá Com a Pulga na Cueca"
E dançam a música sapeca
Ô Papa Hum Mau Mau
Tem a turma prafrentex
Cantando Banho de Lua
Tem bundeira e piniqueira
Dando sopa pela rua
Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado
Que o passado é bom demais!
Lá tem meninas "quebrando"
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a Pó de Arroz
Da Cachemere Bouquet
Coty ou Royal Briar
Colocam Rouge e Laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Robinstein
Saem de saia plissada
Ou de vestido Tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho.

E lá no cinema Rex
Se vê broto a namorar
De mão dada com o guri
Com vestido de organdi
Com gola de tafetá.

Os homens lá do passado
Só andam tudo tinindo
De linho Diagonal
Camisas Lunfor, a tal
Sapato Clark de cromo
Ou Passo-Doble esportivo
Ou Fox do bico fino
De camisas Volta ao Mundo
Caneta Shafers no bolso
Ou Parker 51
Só cheirando a Áqua Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifebouy, Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo
Cintilante como o sol.

Vou-me embora pro passado
Lá tem tudo que há de bom!
Os mais velhos inda usam
Sapatos branco e marrom
E chapéu de aba larga
Ramenzone ou Cury Luxo
Ouvindo Besame Mucho
Solfejando a meio tom.

No passado é outra história!
Outra civilização...
Tem Alvarenga e Ranchinho
Tem Jararaca e Ratinho
Aprontando a gozação
Tem assustado à Vermuth
Ao som de Valdir Calmon
Tem Long-Play da Mocambo
Mas Rosenblit é o bom
Tem Albertinho Limonta
Tem também Mamãe Dolores
Marcelino Pão e Vinho
Tem Bat Masterson, tem Lesse
Túnel do Tempo, tem Zorro
Não se vê tantos horrores.

Lá no passado tem corso
Lança perfume Rodouro
Geladeira Kelvinator
Tem rádio com olho mágico
ABC a voz de ouro
Se ouve Carlos Galhardo
Em Audições Musicais
Piano ao cair da tarde
Cancioneiro de Sucesso
Tem também Repórter Esso
Com notícias atuais.

Tem petisqueiro e bufê
Junto à mesa de jantar
Tem bisquit e bibelô
Tem louça de toda cor
Bule de ágata, alguidar
Se brinca de cabra cega
De drama, de garrafão
Camoniboi, balinheira
De rolimã na ladeira
De rasteira e de pinhão.

Lá, também tem radiola
De madeira e baquelita
Lá se faz caligrafia
Pra modelar a escrita
Se estuda a tabuada
De Teobaldo Miranda
Ou na Cartilha do Povo
Lendo Vovô Viu o Ovo
E a palmatória é quem manda.

Tem na revista O Cruzeiro
A beleza feminina
Tem misse botando banca
Com seu maiô de elanca
O famoso Catalina
Tem cigarros Yolanda
Continental e Astória
Tem o Conga Sete Vidas
Tem brilhantina Glostora
Escovas Tek, Frisante
Relógio Eterna Matic
Com 24 rubis
Pontual a toda hora.

Se ouve página sonora
Na voz de Angela Maria
"- Será que sou feia?
- Não é não senhor!
- Então eu sou linda?
- Você é um amor!..."

Quando não querem a paquera
Mulheres falam: "Passando,
Que é pra não enganchar!"
"Achou ruim dê um jeitim!"
"Pise na flor e amasse!"
E AI e POFE! e quizila
Mas o homem não cochila
Passa o pano com o olhar
Se ela toma Postafen
Que é pra bunda aumentar
Ele empina o polegar
Faz sinal de "tudo X"
E sai dizendo "Ô Maré!
Todo boy, mancando o pé
Insistindo em conquistar.

No passado tem remédio
Pra quando se precisar
Lá tem Doutor de família
Que tem prazer de curar
Lá tem Água Rubinat
Mel Poejo e Asmapan
Bromil e Capivarol
Arnica, Phimatosan
Regulador Xavier
Tem Saúde da Mulher
Tem Aguardente Alemã
Tem também Capiloton
Pentid e Terebentina
Xarope de Limão Brabo
Píluas de Vida do Dr. Ross
Tem também aqui pra nós
Uma tal Robusterina
A saúde feminina.

Vou-me embora pro passado
Pra não viver sufocado
Pra não morrer poluído
Pra não morar enjaulado
Lá não se vê violência
Nem droga nem tanto mau
Não se vê tanto barulho
Nem asfalto nem entulho
No passado é outro astral
Se eu tiver qualquer saudade
Escreverei pro presente
E quando eu estiver cansado
Da jornada, do batente
Terei uma cama Patente
Daquelas do selo azul
Num quarto calmo e seguro
Onde ali descansarei
Lá sou amigo do rei
Lá, tem muito mais futuro
Vou-me embora pro passado.

Uma Paixão Pra Santinha * (ouça - mp3 - 3Mb)
Jessier Quirino (prosa morena)

Xanduca de Mané Gago
Tinha querença mais eu
Me vestia de abraço
Bucanhava os beiço meu
Era aquele tirinete
Parecia dois colchete
Eu in nela e ela in nêu.

No apolegar das tetas
Nos chamego penerado
Nas misturação das perna
Nos cafuné do molengado
Nos beijo mastigadinho
Nos açoite de carinho
Nós era bem escolado.

Era aquele tudo um pouco
Era aquela amoridade
Mas faltava na verdade
Sensação de friviôco
Um querer, uma pujança
Daquela que dá sustança
Na homencia do cabôco.

No dia que`u vi Santinha
Sobrinha do sacristão
O bangalô do meu peito
Se enfeitou feito um pavão
Foi quando esqueci Xanduca
Sem mágoa sem discussão
Pois vimos que nós só tinha
Uma paixãozinha mixa
Uma jogada de ficha
Uma piola de paixão.

Santinha é a indivídua
Que misturou meu pensar
Que me deixou friviando
Sem nem sequer me olhar

Matutinha aprincesada
Mulher de voz aflautada
Olhosa de se olhar
Fulô de beleza fina
É a tipa da menina
Que se deseja encontrar.

Mas Santinha é quase santa
Nem percebe o meu amor
Não tem na boca um pecado
Tem o beicinho encarnado
Pintado a lápis de cor
Só tem olhos pra bondade
Mas não faz a caridade
De enxergar um pecador.

Ah! se eu fosse um monsenhor
Um padre, um frei, um vigário
Eu achucalhava os sino
De riba do campanário
Eu abria o novenário
Eu enfeitava um andor
Botava ela impezinha
Feito uma santa rainha
Padroeira dos amor.

Arranjava um pedestal
Um altar um relicário
Chamava todas carola
Chamava todo igrejário
E dizia em toda altura
Com voz de missionário:

Oh! minha santa Santinha!
Tire este manto celeste
Saia deste relicário
Olhe pra mim e garanta
Que vai deixar de ser santa
Que`u deixo de ser vigário!

Parafuso de Cabo de Serrote * (ouça - mp3 - 4Mb)
Jessier Quirino (Prosa Morena)

Tem uma placa de Fanta encardida
A bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.

Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço e armador
Enxadeco, fueiro, e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco e alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.

É bodega pequena cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.

No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom... tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.

A Segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho e cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum março de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se encontra uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.

Prateleiras são tábuas enjanbradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio de flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.

Tem cabides de copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Tem rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado num sabão
Bodegueiro despacha a um artesão
Parafuso de cabo de serrote.

17 Outubro 2006

Prosa Morena

Jessier Quirino

Comício de Beco Estreito * (ouça - mp3 - 3Mb)
Do Livro:
"Prosa Morena"






Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

Uma gambiarra véa
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um taró
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer.

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha e essa:
Três promessa por minuto.

Anunciar a chegança
Do corruto ganhador
Pedir o "V" da vitória
Dos dedo dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.

Protegendo o monossílabo
De dedada e beliscão
À cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.

Com voz de vento encanado
Com o VIVA dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar do roubo dos home
Prometer o fim da fome
E tá ganha a eleição.

E terminada a campanha
Faturada a votação
Foda-se povo, pistom
Foda-se caminhão
Promessa, meta e programa...
É só mergulhar na brahma
E curtir a posição.

Sendo um cabra despachudo
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:

Ele, um diabo sério, honrado
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.


**************

Zé Qualquer e Chica Boa * (ouça - mp3 - 5Mb)

Empurra a cancela Zé
Abre o curral da verdade
Pra mostrar pra mocidade
Como é que vive um Zé
Sem um conforto sequer
Com sua latas furadas
E a cacimba tão distante
Um Zé arame farpante
Feito de gente e de fé.

O Zé que se aprisiona
Aos cacos velhos da enxada
Que nasce herdeiro do nada
E qualquer lado é seu caminho
Medalhas, são seus espinhos
Quedas de bois são batalhas
Seus braços, duas cangalhas
De taipa e barro é seu ninho.

O Zé metido em gibão
Numa besta atrás dum boi
Por entre as juremas pretas
Por onde o bicho se foi
A poder de grito e ois
Peitando graveto torto
Um dos três vai sair morto
Ou ele, a besta ou o boi.

É cabôco elefantado
Que não tem medo de cruz
Que fita o sol faiscando
Dez mil peixeiras de luz
O Zé que assim se conduz
Nas brenhas deste sertão
O Zé Ninguém, Zé Qualquer
Mas o Qualquer desse Zé
Não é qualquer qualquer não.

É um Qualquer niquelado
Acabestrado num Zé
Não é Zé pra qualquer nome
Nem Qualquer pra qualquer Zé
Diante desses apois
Eu vou dizer quem tu sois
Pode escrever se quiser:

Sois argumento de foice
Sois riacho correntoso
Tu sois carquejo espinhoso
Sois calo de coronel
Sois cor de barro a granel
Sois couro bom que não mofa
Sois um doutor sem farofa
Sem soqueira de anel.

Sois umbuzeiro de estrada
Sois ninho de carcará
Sois folha seca, sois galho
Sois fulô de se cheirar
Sois fruto doce e azedo
Sois raiz que logo cedo
Quer terra pra se enfiar.

No inverno sois caçote
Espelho de céu no chão
Chorrochochó de biqueira
Espuma de cachoeira
Sois lodo, sois timbungão
Sois nuvem quebrando a barra
Violino de cigarra
Afinando a chiação.

Sois bafo de cuscuzeira
Sois caldo de milho quente
Sois a canjica do milho
Sois milho pessoalmente
Tu sois forte no batente
Tu sois como milho assado
Se não for bem mastigado
Sai inteirinho da gente

Tu desarruma as tristezas
Caçando uma risadinha
Sois doido, doido tu sois
Tu sois um baião-de-dois
Tu sois pirão de farinha
Sois bruto que se ameiga
No amor tu sois manteiga
Numa creamecrackerzinha.

Sois um Zé Qualquer do mato
Provador de amargor
Tu sois urro, sois maciço
Devoto do padre Ciço
Sois matuto rezador
O Zé Qualquer em pessoa
Marido de Chica Boa
O teu verdadeiro amor.

É Francisca Caliméria
Feliciana Qualquer
Chica Boa é apelido
Pode chamar quem quiser
Mas digo as outras pessoas
Não digam que Chica "É" boa
O cabra que assim caçoa
Vê direitim quem é Zé.

Agruras da Lata D'água

Jessier Quirino


A Diz Puta Eleitoral

Quando o Coronel Eurico Rosado da Rocha Lisboa chamou o seu protegido para um conversatório particuloso, já estava de festa em dança no juízo, e se rindo de contente. Aquele, era o vivente mais ajuramentado em débito de favor, desbocado e caceteiro e foi realmente o escolhido. No vagão central do alpendre, fez uma recepção sem hem-hem-hem e sem noves-fora e foi logo dizendo:

- Nego Foda, o senhor vai ser candidato nesta eleição, Tá me entendendo?

Ao ser chamado de Nego Foda - apelido que detestava - Biu das Quenga ficou roxo, deu-lhe uma engrossadura de língua, um intestinamento de barriga e só não mandou o Coronel tomar no centroma, por se tratar de um Rosado
Lisboa que não era pouca merda naquelas pastagens. Sem entender direito e engolindo uma carrada de desaforo indagou:

- Eu Coroné Rosado?

- Sim senhor, é senhor mesmo. Não esqueça que o senhor me deve uma soltura de cadeia, de onde nunca sairia! Agora chegou a hora do pagamento.

- Mas Coroné! eu não sou letrejado de ensino, tenho andado mais duro do que santo em procissão e não tenho um pingo, um pinguinho sequer de sintoma prefeituroso!

- Não é para prefeito, é candidato a deputado, que também não precisa nada de letrejamento nem desses sintomas
todo! eu disse que vai ser CAN-DI-DA-TO! não vai ganhar eleição coisíssima nenhuma! Só precisa atacar amundiçadamente o prefeito Mané Jipinho, que vai concorrer comigo, se apoderar dos votos dele, enquanto eu me reelejo pra lhe manter fora da cadeia, ENTENDEU?

- Olhe coroné! Como eu sou um cabra vivido e espromentado nas beira de postulança political, eu vou lhe dizer um retalho de sabença, que é a pronunça mais apronunciada sobre política, que inxeste nesse mundaréu selvageado pelos animá, vegetariado e barrido pelas palha dos coqueiro e aguado pelas onda do mar: Além de sintoma prefeituroso, embocadura deputadal, cancha pra governador e senador e sustança de presidente, o cabra pra ser político no Brasil, precisa no mini-minimóro dos seguintes adjutórios:
Começar a juntar dinheiro, pra depois começar a juntar gente; engolir muita rimunheta de cabra falso, felaputista e pidão; desatar nó-cego de convenção; escutar caquiado dificultoso de partidário que só tem um voto e olhe lá; entrar em embuança de campanha; prometer como sem falta e faltar como sem dúvida; ficar refém da língua do povo; pegar roleta de boca com camumbembe; fazer conchavo com reservista da ditadura; desgaviar o caminho mode os quixó da oposição; receitar pra má-de-monte; desmurmurar mulher falsa e coiseira; acompanhar inrrolamento de papé-de-justiça; levar fama de ter esfrabicado moça donzela; levar fama de ser corno, baitola e ladrão; agüentar fazimento de pouco de eleitor desbriado; botar tamanca pra opositor bom de peia; bater quinhento de bombo com xangozeiro; gritar aleluia em igreja Pegue & Pague; alegrar sessão espírita; assistir meia missa e sair comungado; batizar menino feio com o nome de Dysmeniélisson Jerry; dar dicomer do bom e comer porcaria; almoçar em lata de goiabada; despronunciar discurso má-feito de candidato tabacudo; aplaudir discurso desvirgulado, sem rumo e sem ponto final; cair do palanque e sair todo ralado e se abrindo; aturar converseiro duplicado mesmo depois de banzeiro; aturar gente furona e desconhecida dentro de casa; viver rindo e fumaçando pelo fundo, feito ferro de engomar; acabar sua D-vintezinha na buraqueira; aturar babões civis e militares; botar no braço menino novo do fundo cagado; tomar cerveja quente de espuma murcha; tomar uísque Drury's sem gelo, numa xícara de louça com tira-gosto de canjica; beber naquelas mesona de imbuia, numa saleta escura e abafada, encostado numa cristaleira, e cercado de cabos eleitorais com cada sovaqueira de torar; entregar taça de campeão a time safado; chorar em velório de desconhecido; escrever bilhete com lápis de ponta quebrada; professorar as iniciais do nome de campanha pra eleitor tapado; escorregar em lama de esgoto; gritar ô-de-casa em casa oca; se abrir pra eleitor desabrido; pagar cana pra pinguço desocupado; farejar poeira de bunda em palanque; levar dedada no cá-pra-nós quando está nos braços do povo; escutar destampatório de foguetão no pé do ouvido; magoar o dedo mindim em passeata; dormir chiqueirado da mulher e dos filho; apertar mão de cotó; ganhar abraço fedorento; receitar caixão de defunto e ambulânça; enfiar a mão em saco de dentadura pra distribuir com a mundiça; comprar votos em dia de eleição; estelionatar voto em boca de urna; entrar em embuança de apuração; dar cobro de voto roubado; apertar mão de traidor oportunista, e depois de eleito começar essa camumbembage toda de novo... DEUS O LIVE d'eu sair candidato! Chega me faltou suspiração... E eu vou epilogar por aqui, porque conversa de política é feito coceira, só quer um pezim Coroné!
- Peraí, peraí, paraí ...calma, seu Nego Foda! (ele DETESTAVA este apelido) Se num quer mofar a vida toda na cadeia, trate de assinar logo aqui esses papeis! - Exclamou o Coronel em voz pausada - É a papelada da candidatura. O senhor vai sair candidato com seu nome verdadeiro: SEVERINO DO RAMO que é nome de santo atochado de poder, e agora é que eu quero ver sua milagrura!

Assim, de livre e espontânea pressão, Biu das Quenga se atirou na campanha deixando praticamente de lado seus múltiplos afazeres de agricultor, cachaceiro poeta cantador e assessor de putaria do Cabaré de Luzia Manca, de quem era mancebo, sócio e confidente. Pelo seu desembaraço na assessoria putística, ganhou o carinhoso apelido de Biu das Quenga. Só uma coisa lhe agradava nessa história do Coronel: Era ver o "lado bom" de seu verdadeiro nome estampado nas paredes. Chamava-se Severino Degradável do Ramo. Severino do Ramo era o nome do avô, e o Degradável, seu pai havia tirado da embalagem de um detergente onde se lia biodegradável, que estava a um pulo de grilo do nome do filho. O apelido de Nego Foda - que só ouvia muito a contra gosto da boca do coronel - ganhou na penitenciária quando foi condenado a 453 anos de prisão por ter estourado um garrafão de água mineral - cheio - na cabeça de um senador de quem era motorista em Brasília, que no rastro da garrafãozada, passou quatro anos sem exercer o mandato e sem beber água mineral. O atentado ao senador foi o passaporte para o Coronel Eurico Rosado, na qualidade de suplente, botar o pezão corrupto na política, de onde nunca mais saiu. Julgado e condenado, Biu das Quenga cumpriu cinco anos de xilindró e só saiu por obra e graça do mesmo Coronel, líder político do município de Brasilzim de Dentro e do distrito de Vila Teimosa.
Cumprindo ordens do Coronel, emburacou na tal "politicura desaforada" e no forno da campanha, tratou de denegrir a imagem do ex-prefeito Mané Jipinho, que no passado foi o responsável por sua prisão ao denunciar às autoridades suas andanças na cidade, obedecendo o mandado da mulher que vivia fogueteando com os políticos em Brasília. Em praça pública certa vez insultou:

- Povo de Brasilzim de Dentro! O meu adversário Mané Jipinho, de jipe só tem o nome! Não tem lataria, não tem pára-choque e só anda em prise nas estradas da cornura! O par de chifre que véve monumentado no seu micoco, é matéria prima pra fazer uns quarenta time de botão, uns cento e cinquenta pente de cabo comprido, e as base grossa e maciça dá pra fazer uns quatro cabo de guarda chuva! Mané Jipinho meus senhores! numa festa de corno, fica mais animado do que petista em dia de greve! Mané Jipinho, meus senhores, quer se eleger pra sustentar os capricho daquela lambisgóia com o dinheiro da nação! Mas nem o dinheiro da Alemanha, por mais Italiano que seja na sustança e na robustura das bolsas mundievais, servindo de fundo pras despesas luxentas daquela Primeira Dama, é dinheiro que só se ver muito avexadamente! Aquela primeirona adamada minha senhora, quando sai depois da Voz do Brasil, é mais arrumada do que casa que não tem menino! Sai com uma saia mais curta do que escada de tirar maxixe, com um andar mais macio do que bosta de abacate, e com os beiço brilhando mais do que espinhaço de pão doce! Aquela bicha, anda mais pintada do que carroceria de mercede, mais aberta do que porta de funerária e com o olhar mais enxerido do que chuveiro de bidé! Aquilo é feito saguim do brejo, véve pulando de pau em pau, e é mais quente do que sopa de rodoviária! Aquilo é mais atraída por macho, do que sapo por olho de cobra! Numa saída dessas minha senhora! ela goza mais do que tocador de jazz! Aquilo na rua, é mais esperta do que freguesa em tabuleiro de retalho, e em casa é mais enjoada do que uma sapatão menstruada! Por isso meus amigo! aquele Mané não pode nem sequer se descuidar fazendo campanha muito menos representando o povo na assembléia congressosa que governa esta nação! Quem véve com mulher macheira, é mesmo que atucaiar leite fervendo: tucaia, tucaia, tucaia... descuidou uma coisinha... pou! derrama, e é aquele istrupiço da gota serena!

Esse Mané atuleimado coitado, gordo que nem cururú de goteira, fica cochilando que nem bêbo em fim de tarde e acorda mais triste do que comércio fechado! A vitória de Mané Jipinho meus amigo! é mais difícil do que cagar de macacão, sua campanha está mais emperrada do que janela de lotação e mais desorientada do que cotôco de rabo de lagatixa torado! Ele diz meus amigo, que vai trabalhar por Brasilzim de Dentro! Mas trabalho na vida desse Mané, é mais raro do que bailarina dos peitão! Aquilo pra trabalhar, faz mais pantim do que pai-de-santo em macumba de rico! Encontrar esse homem trabalhando é mais difícil do que encontrar um fí de rapariga com o nome de Júnior! Precisar da proteção dele no congresso é mesmo que dormir com lençol curto em casa mal-assombrada! Estadualisar uma deputança nas mão de Mané Jipinho meus amigo! é mermo que botar bordado e renda em caçola de mulher séria e recatada!

É por isso que eu peço meus senhores, que se adicida a votar in nêu! Peço e ao mesmo tempo despeço, porque acho que não sou o único merecedor do seu voto! Eu só peço meus amigo, que não vote em Mané Jipinho, que quer ver o esqueletamento de minha candidatura, arrebolando de mundo abaixo o meu passado de penitenciária! Eu quero dizer a vocês! que nada disso abala o meu catálogo político na democradura brasileira! Os meus outroras de condenado, não só me "vai e desce", como me detergenta e me agirafa! Me agirafa muito além das altura, onde asa de morcego não galopa, onde não chega esputinique da NASA e nem cometa luminoso adisparado pelos Russo comunista! Só quem chega nessas altura meus amigo! é a bala pontariosa da poesia e a brancura da honestidade que herdei do finado meu avô BIU RAMO CANTADOR o maior poeta de Vila Teimosa e dessas redondura de Nordeste sofrido e calejado! Eu só fui preso meus amigo! porque não sube atulerar fazimento de pouco de político da qualidade de Mané Jipinho cujo mandato, faz tanta falta quanto uma radiola em boca de cemitério!

Com sua oratória matuto-político-camumbembal, Biu das Quenga foi conseguindo atrair até criancinha de oposição, e aos poucos foi avessando a casaca de eleitor acabestrado não só com Mané Jipinho, mas também com o Coronel e demais políticos de Brasilzim de Dentro e Vila Teimosa. Mas foi o tiro de misericórdia aplicado em Mané Jipinho que disparou sua campanha. Com poesias feitas de próprio punho, meteu o sarrafo, caluniou o concorrente, além de divertir e atrair a atenção do povo para seu palanque. Com a ajuda de Luzia Manca que tirou as digitais matutas para melhor expressar a suposta fala do prefeito, soltou o falso, PENSAMENTO DE MANÉ JIPINHO, como sendo o proibido discurso de posse do concorrente quando eleito prefeito de Brasilzim de Dentro, onde se lia o poema com o mote de um poeta Potiguar Sempre Foi Meu Desejo Comer o Cu Desse Povo:

Adaptação do mote de Augusto Macedo

Assim que saio eleito
No fim duma apuração
Me dá muito mais tesão
Por o povo ter-me aceito
Se fui eleito prefeito
Com o voto deles de novo
Eu pago com um par de ovo
Um taco duro e gracejo:
Que sempre foi meu desejo
Comer o cu desse povo...

...Vou me mantendo fiel
A este povo bundeiro
Sou político verdadeiro
Neste país de bordel
E desta lua de mel
Sei que jamais me demovo
E sendo eleito de novo
Como em grosso e varejo
Pois sempre foi meu desejo
Comer o cu desse povo.

Com o poema auto-falanteado no meio da feira pelos cordelistas de plantão, o povo ficou que nem romeiro em cima de Padre Cícero atrás de um folheto. Nesse dia, a feira de Brasilzim, assistiu ao maior engarrafamento de balaio que se teve notícia na história recente do país. Mané Jipinho ferveu o radiador, queimou a junta do tampão, entupiu o cano de escape e teve um entronchamento de boca tão desbalanceado que foi preciso interromper a campanha com problema de frouxura e derramamento de palavra, trimilique labial e uma baba que cachoeirava de queixo a baixo, pior do que boi pastando. Até os juizes da Justiça Eleitoral fizeram vista grossa para o processo de calunia, com pena de interromper uma campanha que arrancava de forma tão inusitada.

A ordem de interrupção veio porém da boca fumívora do Coronel Eurico Rosado, que depois de encomendar uma pesquisa sentiu que o feitiço tinha manobrado e vinha acelerado em sua direção.

A pesquisa dava larga vantagem 72% para Severino do Ramo, 19% para Eurico Rosado e 9% para os demais, inclusive Mané Jipinho, que enrolado na cornura asseverada por Biu das Quenga, e na poesia do falso discurso, não conseguiu desentronchar a boca nem fazer um único discurso desmentindo o espalhado. Como único consolo, ouviu de um vereador a expressão animadora:

- Deixá-los falá-los que eles calarão-se-ão e a gente arranjará-se! Jipinho não pára no atoleiro!

Para dar uma acabancia na euforia do povo e reverter o quadro, o Coronel mandou a Biu das Quenga, por seus capangas, a ordem de murchar a campanha loguinho loguinho, e que a estratégia dos versos fosse usada recomendando o seu nome. Como o poeta recusou de cara a proposta do coronel, surgiu um racha entre os dois da largura dum rio cheio. Indignado, Biu das Quenga saiu voando nas pontas dos dedos, de má sombra, alpercateou o alpendre do coronel e falando de poleiro atacou:

- É Coroné! Eu sei que o senhor é baludo, amarombado de poder e que, de mamando a caducando o senhor é quem dá as ordens de viver, morrer, comer, cagar e dormir por essas banda, dentro dos seus conformes! Mas agora eu vou descaroçar um assunto a respeito do seu, de uma vezada só! Se gostou gostou, se não gostou coma menos! e não venha tentar me engolir porque eu abro os braço e não entro: Saiba o senhor que eu sou cabôco de primeira apanha, e sou agradecido de minha soltura, dêreitamente como deve ser! mas me fazer de papangu na frente do povo o senhor não faz não! Se o senhor tem cabelo na venta, eu tenho pelo no coração! Brigar, eu não vou brigar, porque brigar com o senhor é mesmo que vadiar com terra, mas num ano de seca como esse, de muito chocalho e pouco pescoço, eu não vou deixar o senhor entrar de rédea frouxa nas cana dos deputado não senhor. Antes fanhoso que sem venta! Pra vaga de deputado eu também sou candidato ENTENDEU?

O coronel cresceu pra cima do matuto, que encarou o crescido com um inchar de alpercata do mesmo quilate. Sentindo a ponta de uma lambedeira de catorze polegadas alfinetar e seu terno branco, teve que bochechar e engolir o primeiro desaforo da vida. Em seguida, com distancia de uma braça, abriu a blusa da porta, enfiou corpão banhudo pela janela em tempo de arrancar os alisás e pegou lá dentro de casa um envelope graúdo e amarelo. Com dentes de cachorro abriu um rasgo na beira e tirou um papel falado de cima a baixo, carimbado e reconhecido em cartório. Era o documento de renúncia à candidatura de deputado já assinado por Severino do Ramo. Em seguida, elasticando o suspensório e assanhando o bigode caceteou:

- É seu Nego Foda! Infelizmente o senhor já renunciou à candidatura!

Biu das Quenga foi tomando a cor do nambú, sentiu a engrossadura de língua, o intestinamento de barriga e baixou a matéria pra cima do Coronel:

- Prêmeiramente, Nego Foda é a puta que o pariu! Seu coronezim varejado duma figa! Ladrão de cegar coruja, robador de leite de menino, usuráve calculista! Eu tou vendo que o senhor é mais egoísta do que buraco de funil! Mas fique sabendo que o senhor só é graduado mesmo é em filosofia da bufa! Tá pensando que hai home mais home do que outro home? Arrepare num espelho que coronezim da qualidade do senhor, é como circo, de beira de estrada só tem mermo a armação, e a ponta da minha pajeuzeira entra mais fácil do que trinchete em melancia! Se quiser encarar pode vir que eu agüento o canjirão! E segundamente, não hái dois altos sem uma baixa no meio! Sabendo que tipo de coroné é o Coroné, eu tratei de somar meus precavidos e registrei a candidatura de minha mulher Luzia Manca, que já pintou as faixa de campanha, só tava esperando o senhor findalizar a safadeza! Pode se preparar pra campanha quente, que de agora em vante o senhor vai ser mais pisado do que direito de pobre!

Botou o chapéu na cabeça, segurou as rédeas do seu cavalo e com o pé no estribo, Pedro Primeiramente bradou:

- DEPUTADURA OU MORTE!!!

* * * * * * * * * * * *

O Estreito da Galheira ficou ainda mais estreito para caber tanta gente. Na frente do velho sobrado uma placa velha de ágate branca e letras azuis enfeitada de luzes vermelhas identificava: CABARÉ - SOFRIDO SONHO DE LUZIA. Ao lado, uma nova placa, moderna e bem legível foi elevada ao som do Hino das Prostitutas - O desprezo que tua mãe me deu- com os dizeres: COMITÊ CENTRAL DA FUDENE - Fudedeiras Desenvolvendo o Nordeste. Em cima dum caminhão Biu das Quenga abria oficialmente a campanha pedindo a todo eleitorado, para com o seu apoio, eleger sua mulher Luzia Manca Deputada Estadual. Quando se referia a mulher sempre frisava que era parida, mamadeirada, soletrada, e viajada na grã-finura, só caindo no gramado aos dezenove anos depois de um desgosto amoroso. Portanto mais apetrechada de que ele, na sabença e na palavra, para representar o povo de Brasilzim de Dentro e Vila Teimosa. No decorrer do discurso inaugural em certo momento falou:

- ...Foi por isso meus senhores! que eu tive que abandonar minha campanha, me livrando também daquele Coroné agalochado em roubo de esticão! Aquele virador de casaca, que cagou na palmilha do sapato do bispo, meus senhores! além de neolítico, paleolítico e ordinário, é capaz de botar um "cerca-lourenço" no povo e matar tudo de fome! Mais foi até bom meus amigo! eu me livrar daquela lacraia porque só quem acompanha o Coroné Eurico Rosado é aquela hemorróida braba de 500 anos. Agora meus amigo! nós vamos eleger Luzia Manca, com a ajuda de vocês e dos santos descedor das altura! inclusive Clementina de Jesus e Santa Paciência! Só não vem mesmo pro nosso palanque, o glorioso São Sebastião porque se encontra amarrado, mas mesmo assim vai mandar um representante! Votando em Luzia Manca meus amigo! vocês estão votando numa mulher que é danada pra achar doce onde só se ver amargura! ...

Para demonstrar que não existia conchavo político com os demais partidos e total transparência nas decisões da FUDENE, a cúpula do partido distribuiu um folheto intitulado Conversa de Bastidor, que dizia:

Pra mandar tudim pra PQP
Não pudemo se quer, se PDT
Que é mode o PSB
Amuntado no PV
Não vir se aliançar.

PC-dê-Bando a hipótss
Dum PT, sem muito T
Nem que a legenda se mele
Ou de PF ou de L
Feito PMDB

Antes que o pau recomece
Vai assim asuceder:

PMN não manda
Já desanda o PTB
PSDB tira o S
Logo depois tira o B
No mei desse sururú
Nós pega o F e o U
E acunha tudo no D.

Nessa pisadinha de matutagem, Luzia Manca foi crescendo na disputa eleitoral com o mesmo sucesso de Biu das Quenga. No comitê, as putas devidamente organizadas formaram um cartel, super-faturaram os preços e foram conseguindo fundos de campanha. Toda estrutura de rua se limitava a três cornetas e um tarol, fazendo distribuição de folhetos desaforados atacando o coronel, que juntava gente como pó em serraria. Depois de receber um recado do
Coronel avisando que se preparasse para uma "VISITINHA," Biu das Quenga contra-atacou em verso, que logo em seguida foi distribuído em forma de panfletos. Tinha o nome de Desaforismos Matuatais e dizia:

...O Coronezim Rosado?
Me fazer uma visitinha?
Pois diga a ele que venha!
Mas que venha apetrechado
Armado e municiado
Muntado na vovózinha!

Aquilo é veado môcho
Sabuguento duma figa
Fí de pai véi espantado
Bisneto de rapariga
Fí de feme de reboque
Boiôso que nem me toque
Fabricador de intriga.

Cara de pinha amassada
Cafifento e encostão
Maracujá de gaveta
Cadáve sem oração
Esprito papagaioso
Xexêro, testiculoso
Miséra, frouxo do cão.

Aquilo não tem registro
Muito menos escritura
Não tem fí que dê o nome
Tem metro e mei de altura
Aquilo é chei de mistério
É rato de cemitério
Roubador de sepultura.

Aquilo é bicho bargado
É coice de rifle ruim
Sujeito precipitante
Comedozim de capim
Mosca de fumo seboso
Ordinário e pegajoso
Danisco de pituim.

Pai de chiqueiro entufado
Gerente de traficança
Não vale o peido da gata
Essa vibra sem sustança
Insosso, despimbolado
Tirador de confiança.

Aquilo é veáco duro
Chupado da carochinha
Hotel de pulga e piolho
Que rouba fel de galinha
Não vale um grão de aval
E nem cocada de sal
Nem um guti de farinha.

Um bom trompaço eu dispêio
Na pessoinha do cujo
Com mantença de moral
Piso na raia e não fujo
Encaro o caceteado:
Bofetante e bofetado
Vira-latando o rabujo.

Depois dos Desaforismos, Luzia Manca subiu para 78% nas pesquisas à um palmo da eleição. O Coronel no desespero tratou de partir para a violência física como única forma de deter o avanço de Luzia e demonstrar autoridade. Na maior batalha de bufete já vista em Brasilzim de Dentro e Vila Teimosa, os FUDENISTAS saíram vitoriosos. Numa coletiva a imprensa, Biu das Quenga contou como se deu a batalha:

- O Coroné Rosado, já viu que seu partido tá mais dividido do que terra de herdeiro, minha gente! Veio com provocação pro meu lado, com os capanga dele mais armado do que navio de guerra! Eu que tava com Mané
Perigo, Soldado Chico Veneno e Sargento Melhoral FUDENISTAS de torar, partimo pro ataque e foi briga de ser medida a metro: Eu dei um tabefe no porta orelha de Mané Capado que ele borboletou uns dois palmo e caiu no chão feito uma jaca mole! Chico Veneno fez judiária com uns dez capanga que saíram regando a terra com mijo! Um capanga lá dele omilhou Mané Perigo com uma dedada... Meu cumpade! Esse home ofendido na região glútea, virou uma fera, e entre a rapidez da dedada e a imediatidade do ÊPA!... deu um berro nas oiça do sujeito que escorregou na frouxura e caiu sentado. Mané Perigo aprumou-lhe um tabefe aparentado a um coice de mula, que o matuto não sabe como não morreu com um Pei-Bufismo tão da gota serena! Mané Perigo partiu pra cima dele com um gênio de 150 siri dentro duma lata de querosene, deu-lhe um sopapo no serrote dos dentes que choveu canino, molar e incisivo por três dias no síto Boca Funda! O Sargento Melhoral que tava meio desmotivado de briga, deu um cascudo na marmita dos pensamento de Luiz Cocada, que o pobre ficou com um sangror pelos esgoto da venta, que se não fosse a lona dum GMC que tinha lá, ele tinha caído numa morrença, pra nunca mais. No meio desse diálogo todo, eu ví foi o Coroné sair num derrapo de velocidade que espantou até os Emerson e demais Fittipaldes.

* * * * * * * * *

Na passeata rumo ao último comício, de aproximadamente vinte e duas mil pessoas - vinte e uma mil novecentos e noventa e oito bestas, acompanhando Biu das Nega e Luzia Manca - toda rua era estreita pro cuscuz de gente. No palanque armado no cruzamento da rua do Arrombado com o Estreito da Galheira, os clarins anunciavam a chegada de Biu das Quenga que vinha a cavalo nos braços do povo e Luzia Manca que vinha andando no meio do xerém. De vendedor de amendoim à contrabandista de computador, de tudo se via nas proximidades do palanque, além é claro dum carrossel de segunda e canoinha pra meninada. Num discurso puxado com sustança, e como disse Biu das Quenga: Mais bonito do que pé de macaíba na safra, Luzia Manca fez o seguinte pronunciamento em versos, apresentando sua equipe de trabalho, e denunciando as mazelas da cidade:

Meus amigos fudedore
Gigolôs e cachaceiros
Ilustres raparigueiros
E todos da região!

Se a FUDENE não fudesse
Não fosse mulher bolida
Se não quengasse na vida
Não tava na eleição.
Disputou com puta a puta
Mas trouxe no fim da briga
Um coral de rapariga
Pra cima do caminhão.

Trouxe Zefa Pragatão
Trouxe Priquito de Frande
Teinha do Obreiro Baixo
E com licença da palavra
Trouxe Roquete Cuzão.

Roquete é feito feijão
Quando esquenta dá o bicho
Mas andará no capricho
No rumo da eleição.

Reparem bem o estado
Dessa nossa região:
Do Estreito da Galheira
Do beco do Pinguelão
Lá do Buraco da Velha
Do Pau Torto e Suvacão.

Da Rua do Arrombado
Lá da Taiáda da Jega
Esquina do Lasca e Trinca
Suvaco de cururú
Atolado da Frieira
Rua da Beira Seca
E do Beco do Tejú.

Não queiram ver o estado
Do apertado da hora
Da Pinguela do Tauá
Do Beco do Quebra Pote
Da Rua do Quixelau
Rua do Grude e da Merda
Escorrega lá vai um

E Beco do Eita Pau.
Estão levando na zona
A nossa Zona sofrida
Zonaram da nossa Zona
Nunca nos deram carona
No trem que sobe na vida.

Mas esta bacafuzada
Tá com seus dias contados
Quem ganha a vida fudendo
Levando e sendo enganado
De tanto saber gemer
Quer "tanto assim" pra fuder
Prefeitos e Deputados.

Vote em nossa bandeira
De norte sul leste oeste
Vamos votar na FUDENE
A redenção verdadeira
Que são essas fudedeiras
Desenvolvendo o Nordeste.

Finalizo estas palavras
Clamando de braço aberto
Aos companheiros de luta
Que vamos votar nas puta
Pois nos filhos não deu certo.

Terminado o comício, o bolão de gente em passeata acompanhou o casal até a porta do comitê, que estranhamente tinha as portas encobertas por um painel enorme de fundo vermelho e letras brancas com a seguinte inscrição: EURICO ROSADO ESTÁ NA BOCA DO POVO. Sem entender direito como surgiu aquela palhaçada, Biu das Quenga foi se dirigindo para o painel quando foi atingido por uma bala na barriga. Ferido em tripa de segunda, com o corpo fora do prumo, viu o Coronel ensacando a pistola de volta na cintura em cima de um cavalo. Ainda teve força de puxar uma faca da meia e assim como um atirador de circo cravou-a no peito do coronel, que, com um vazamento de vida lavando-lhe o corpo, pensou: "Ainda vou ter fôlego para ver este infeliz morrer". O poeta baleado cambaleou, feito um morcego no chão, olhou para o painel pintado de vermelho e letras brancas e viu o que só um poeta pode ver: A última pá de terra no nome do Coronel: Passou a mão na barriga encharcada de sangue e com o pincel dos dedos pintou de "vermelho sangue" a perna de baixo de "E" de EURICO. Deu uma risada de acordar qualquer moco e entre AIS! e QUÁ-RÁ-QUÁ-QUAIS, caiu no chão para ser socorrido. Ao levantar a vista, o bolão de povo entendeu o motivo da gaitada do poeta: Em letras garrafais lia-se agora, "FURICO ROSADO ESTÁ NA BOCA DO POVO."

A Deputada Luzia Manca fez a maior passeata da vitória já vista nas redondezas. Neste mesmo dia, na capital, o Coronel Rosado, convalescendo da facada, morreu dum enfarto, ao saber que seu nome - já afuricado - foi usado no batismo de um partido gay no Paraguai. Biu das Quenga cachaceiro inveterado que tinha feito uma promessa de só beber na outra safra de caju - se escapasse do tiro - tomou umazinha só pra envinagrar a alma. Ao ver o estandarte da mangação com o nome de FURICO ROSADO desfilando rua abaixo, abriu uma garrafa e bebeu no gargalo, num risadeiro de afrouxar suspensão. Ria, ria, ria e... CANA. Viva! Viva! Viva! e.... CANA. Dança, dança dança e... CANA. Numa golada dessas ouviu um zunido contínuo, um claridão ofuscoso, uma infalência de indivíduo, dançou pra lá e dançou pra cá e... DANÇOU.

No aniversário de sua morte. Ao invés de tristeza, toda cidade ri de recordação. No Cabaré SOFRIDO SONHO DE LUZIA, passou a funcionar o MEMORIAL BIU DAS QUENGA onde numa lápide na base de seu busto lê-se a seguinte inscrição: " SEVERINO DO RAMO ( BIU DAS QUENGA). O homem pobre que derrotou, Senador, Deputado, Prefeito, e Coronel num país dominado pelo poder."

Certo dia um Presidente da Republica fazendo média com a pobreza em Brasilzim de Dentro, ao depositar uma coroa de flores na base do busto, lendo a inscrição da lápide falou de si pra si : "PÔ! ESSE NEGO ERA FODA!".

A estátua foi ficando roxa da cor dum nambu, teve uma engrossadura de língua, um intestinamento de barriga e falou: "NEGO FODA É A PUTA QUE O PARIU, PRESIDENTIZINHO BOSTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

16 Outubro 2006

Scorpions - Still Loving You

Scorpions - Rhythm Of Love

Scorpions - No One Like You

Accidently In Love

Queen - Love Of My Life

07 Outubro 2006

Curiosidades:

REAL, REAIS...
Cláudio Moreno
Uma leitora japonesa, casada com um brasileiro, escreve de Quioto para elogiar esta coluna. Como o casal pretende mudar-se para o Brasil, ela vem estudando regularmente o nosso idioma, mas tem encontrado algumas dúvidas que os livros de que dispõe não conseguem solucionar. "Não consigo entender, professor, por que parabéns não tem singular e por que real, a moeda brasileira, não tem plural". Como vou mostrar a seguir, minha cara leitora, não é bem isso o que acontece por aqui.
Em primeiro lugar, não podemos afirmar que parabéns não tem singular. É certo que existem, em nosso idioma, muitos vocábulos que praticamente só usamos no plural, conhecidos como pluralia tantum - expressão tradicional da gramática latina que significa "apenas plurais". E não são tão poucos assim; entre os mais conhecidos, lembro-te afazeres, anais, arredores, bodas, condolências, confins, esponsais, fezes, exéquias, núpcias, parabéns, pêsames, primícias, víveres. Como a marca do plural é sempre acrescentada a uma forma anterior, não-marcada, não há dúvida de que todos eles têm (ou tiveram) uma forma singular, que, por razões semânticas, simplesmente deixou de ser empregada. Em textos mais antigos, vais encontrar, aqui e ali, alguma ocorrência de pêsame, fez, boda, etc., prática logo abandonada. Nosso estimado Padre Vieira, em seus Sermões, escritos no século 17, usa parabém por toda parte, inclusive fazendo um jogo de palavras tão ao seu gosto: "Alcançaram o que pediram, aceitaram muito contentes o parabém do despacho, mas o despacho não era para bem". Certamente haveríamos de achar outros exemplos em escritores da mesma época, mas isso não deve obscurecer o fato, hoje incontestável, de que esses vocábulos devem ficar mesmo é no plural. Para fins práticos, devem ser considerados como aquelas cadeias de montanhas que também sugerem a existência de um singular perdido na noite dos tempos: os Alpes, os Andes e os Pirineus.
Quanto ao nosso real, admito que muita gente simplesmente não utiliza a forma do plural, sob a misteriosa justificativa de que é o nome próprio do nosso dinheiro (!); conseguem, sem enrubescer, dizer vinte real, assim como os camelôs cariocas falam de dez dólar. Estas pessoas devem ter memória curta, para esquecer que, em vernáculo, nossas moedas sempre tiveram singular e plural: sempre se falou e escreveu cruzeiros e cruzados; continuamos a nos endividar em dólares e em euros; as páginas da literatura estão repletas de tostões e vinténs, piastras e rupias, patacões e balastracas.
Quando a nossa atual moeda foi instituída, houve uma breve discussão sobre qual seria o seu plural; os mais afobadinhos encontraram "real - pl. réis" nos dicionários e vieram, triunfantes, corrigir os que começavam a dizer reais. Em pouco tempo, contudo, esclarecia-se o equívoco: réis era o plural de um real virtual ("moeda ideal", diz Morais), valor apenas de referência; o verdadeiro real, antiga e respeitável moeda portuguesa, fazia mesmo o plural reais (como, aliás, qualquer substantivo terminado em -AL). O velho dicionário de Morais (minha edição é de 1813) é bem rico em detalhes: explica-nos que havia os "reais brancos del-Rei D. Duarte; eram de cobre com estanho, 20 deles faziam uma libra e valiam 36 réis"; "os reais pretos, de cobre sem liga"; e "os reais de prata".
Portanto, prezada leitora, quem te disse que aqui não pluralizamos o nome da nossa moeda enganou-te direitinho, pois assim fazemos desde 1994. E já que vens morar no Brasil, brindo-te com uma útil observação: o antigo mil-réis hoje serve para designar, popularmente, qualquer unidade do inconstante dinheirinho brasileiro; eu já usei mil-réis (o nosso simpático merréis, avô da merreca) para falar do cruzeiro, do cruzado, do cruzado-novo, do cruzeiro-novo e agora do real. Se um dia - que os deuses não permitam! - surgir o real-novo, vou continuar a dizer "Custa dois mil-réis".
(Porto Alegre, 13 de novembro de 2004 - Jornal Zero Hora, Edição nº 14328)
[Prof Cláudio Moreno - E-Mail claudio.moreno@zerohora.com.br - www.sualingua.com.br ]

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PALAVRA TREM
Interessante que o assunto mineirês veio a tona logo no dia que alguns transtornos foram causados pelo desconhecimento do mineirês por parte de alguns jornalistas que escreveram a seguinte manchete:
"Trens batem de frente em Minas".
Os mineiros obviamente não deram a devida importância, já que pra nós isto quer dizer apenas que duas coisas bateram. Poderiam ser dois carros, um carro e uma moto, uma carroça e um carro de boi; ou até mesmo um choque entre uma mala de viagem e a mesa de jantar...
Movido pela curiosidade, resolvi então consultar o Aurélio e vejam o que diz:
Trem: sm. 1. Objetos que formam a bagagem dum viajante. 2. Mobiliário duma casa. 3. Bras. Comboio ferroviário. 4. Bateria de cozinha. 5. Bras.Pop. Treco. 6. Diz de pessoa ou coisa ruim, imprestável.
(Bras. : é a abreviatura de Brasileirismo)
Vejam que o sentido de comboio ferroviário é apenas o 3º, e ainda é considerado um brasileirismo. Comentei o fato com um amigo especialista em etimologia que esclareceu a questão: o comboio ferroviário recebeu o nome de trem, justamente porque trazia, porque transportava, os trens das pessoas. Vale lembrar que nesta época o Brasil possuia uma malha ferroviária com relativa capilaridade e o transporte ferroviário era o mais importante, assim era natural que as pessoas fizessem esta associação.
Moral da estória: O mineiro é antes de tudo um erudito. Além de erudito,ainda é humilde e aceita que o pessoal dos outros estados tripudiem da forma como usa a palavra trem. Na verdade, acho que isto faz parte do espirito cristão do mineiro, ele escuta as gozações e pensa:
"Que trem, sô... mas que sejam perdoados, pois não sabem o que dizem".
[Quem conhecer o autor deste texto, avise-me por gentileza]

ORIGEM DA PALAVRA MANJEDOURA
Segundo o mestre Deonísio da Silva, manjedoura deve vir do italiano mangiatoia , cocho onde se põe comida para os animais. Pode ter derivado de manjar (comer), que tem formas semelhantes no francês manger e no italiano mangiare .
No latim, que deu origem ao português, ao francês e ao italiano, há o verbo manducare , que significa mastigar.
A manjedoura, por ter servido de berço ao Menino Jesus, tornou-se um símbolo cristão.
Manjedoura, portanto, é o lugar (douro) onde os animais comem (manjar).
É importante também observarmos o sufixo "-douro", que aparece em palavras como ancoradouro (lugar onde o navio ancora, põe a âncora para atracar), babadouro (tipo de protetor onde a criança baba) e bebedouro (onde se bebe água).
Com muita freqüência ouvimos "bebedor", em vez de bebedouro. Ora, bebedor é aquele que bebe, e não o lugar.
Por fim, é interessante lembrar que o sufixo "-douro" é variante de "-doiro". Isso significa que as formas ancoradoiro e bebedoiro também existem. E para o babadouro, o dicionário Aurélio também registra as formas babadoiro e babador. Existe ainda o sinônimo babeiro.

DE ONDE VEM O ARLEQUIM?
Affonso Romano de Sant'anna

Aí pelas ruas talvez exista ainda alguém fantasiado de Arlequim, como ocorria nos carnavais há algumas décadas. Mas é raro. Assim como o Pierrô e a Colombina, o Arlequim foi muito popular na virada do século. Aliás, não só esse trio, mas toda uma família de saltimbancos, que havia irrompido nos palcos do século XVI. Mas por uma série de fatores, a tematização desses tipos foi muito constante na virada do século XIX para o século XX.
Em 1892, Leon Cavallo cristalizou o conflito do triângulo amoroso em "Os palhaços". Em 1905, Picasso pinta "Família de saltimbancos" e outros quadros com esses personagens. Degas e Cézanne estão entre muitos que também pintaram seu "Arlequim". A própria literatura brasileira vem, em 1919, com "Carnaval", de Manuel Bandeira; em 1920, com "Máscaras", de Menotti del Picchia, e "Arlequinada", de Martins Fontes. Mário de Andrade, por sua vez, tematizou o carnaval sob várias formas e definia-se como uma criatura arlequinal.
Mas quem vê o Arlequim tão sestroso, folgazão e brejeiro (como se dizia), mal pode imaginar que num tempo remoto ele foi o avesso disto tudo. Exatamente. Originalmente, em vez de um sedutor, foi um violador. Em vez de amante, um estuprador. Em vez de um dançarino, um guerreiro bárbaro.
Por isto, o estudo de certas imagens e palavras mostra como o certo e o avesso vivem se intercambiando. Preocupado com essas ambivalências, Freud já havia anotado que a etimologia de "branco" e "preto" parecia ser a mesma, alertando para o fato de que o radical do francês "blanche" e do inglês "black" é o mesmo.
Arlequim, Hallequim. O nome é quase idêntico. Mas o significado diametralmente oposto.
Quem vê no palco ou no carnaval o saltitante e sedutor Arlequim nem percebe que ele é uma variante moderna de um tipo selvagem que comandava uma horda de homens-bestas. Hallequim é uma deformação onomástica de Harila-King - rei dos exércitos. Tinha na mão enorme maça ou tacape. Comandava um feralis-exércitus (exército de mortos). Pertencia à mesma estirpe de figuras primitivas, como o lendário rei Frotho, da mitologia dinamarquesa, que invadia aldeias, violentava mulheres e humilhava barbaramente os vencidos. Esses guerreiros exibiam a petulância (agressividade sexual), a lascívia (exigências sexuais) e se consideravam conubernales (companheiros da tenda do rei). Vestiam-se de peles selvagens, assemelhando-se aos ursos, e não cortavam os cabelos até que matassem alguém. Também não tinham propriedades pessoais e viviam se deslocando atrás de presas, como centauros seqüestradores de mulheres.
Mito? Realidade?
Esse exército não era só uma crença. Era muito bem representado por máscaras. Temos uma prova disto, uma descrição que data de 1100, vinda da Normandia, que cita como rei da tropa selvagem um certo Herlechinus, que viria do Harilaking anglo-normando, rei da família Herlechini, que não é senão o Arlequim. Nosso Arlequim da commedia dell'arte foi, na origem, o sublime rei de um exército de fantasmas. Pode-se reconhecer esta forma primitiva do Arlequim em muitas personagens que existem no carnaval, graças à fantasia que usam. A partir de 1470 esta fantasia é descrita como despedaçada, cheia de rasgões, com pequenos pedaços de tecidos coloridos.
Um estudo semiológico das metamorfoses do personagem, sua passagem da horda primitiva para o palco da comédia, poderia ser feita mais detalhadamente. Não só a transformação da roupa esfarrapada em estilizados losangos coloridos, mas a conversão do porrete original em espada fálica. Igualmente, a figura original do Hallequim está sempre num cenário onde há cavalos e se inscreve no mito dos centauros. Esses cavalos, carroças, carruagens encaminham o tema do seqüestro, presente nas diversas peças e gravuras que tratam do Arlequim moderno. O que era grotesco atinge não apenas o cômico, mas até o sublime, através da estilização, em peças como "O triunfo de Arlequim", "Arlequim Imperador da Lua" e "Arlequim Cavaleiro do Sol" (séc. XVIII). O bárbaro e primitivo Hallequim surgia nas vilas e aldeias em meio a formidável charivari. Sobretudo no solstício de inverno (entre o Natal e a Epifania). Ele está registrado num texto do séc. XIV ("Roman de Fauvel") que, em forma de poesia, narra o casamento de um cavalo e uma mulher.
E por aí teríamos muito ainda a discorrer. A moderna teoria da carnavalização, que amplia o que em 1927 foi lançado por Mikhail Bakhtin, tem notável contribuição a dar não só na problematização e recuperação desse personagem, mostrando como o imaginário civiliza as imagens arcaicas. Um estudo moderno do Arlequim não pode desvinculá-lo da figura daquilo que em antropologia se chama de "trickster"- aquele mágico e malandro das tribos, que é tão bem encarnado no "Macunaíma" de Mário de Andrade.
E assim como a imagem do Arlequim se enriquece com a recuperação de seu metamorfoseado avesso histórico, também as figuras do Pierrô e da Colombina vão deixando de ser apenas fantasias episódicas e superficiais de uma festa carnavalesca, para serem estruturas simbólicas de nosso inconsciente e de nossos dramas sociais.
Tomemos um exemplo, entre tantos, na literatura brasileira: "Dona Flor e seus dois maridos", de Jorge Amado, é um romance que pode ser lido nessa clave. Vadinho é o Arlequim: dançarino, boêmio, brigão, don Juan, sedutor, jogador, vivendo aleatoriamente o prazer presente. Morre dançando no carnaval, fantasiado de mulher. Já Teodoro é o Pierrô: é o lugar da ordem, do prazer com horário certo, um burocrata no sexo e nos negócios. Porém, Dona Flor, envolvida por esses dois amores contraditórios, resolve imaginariamente o conflito que a Colombina tradicionalmente nunca pôde resolver. Ela fica com os dois. Trabalha pela inclusão imaginária, vivenciando uma verdade intemporal, pois as criaturas humanas são elas e suas contradições.
As máscaras nos falam das ambiguidades e a teoria da carnavalização ajuda a resgatar enigmas de ontem e a aclarar comportamentos individuais e sociais hoje.
[Jornal O Globo - 5 de Março de 2003]

APORTUGUESAMENTO DE ALGUMAS PALAVRAS DO FUTEBOL
Vejam, a seguir, trechos transcritos de alguns jornais da época em que o futebol chegou ao Brasil:
1. "Jamais, nesta capital, affluiu igual concurrência em jogos de foot-ball, nem mesmo durante os matches do Sul-Americano."
2. "A partida assumiu a proporção de um vultoso acontecimento que ultrapassou os limites do mundo sportivo..."
3. "...e tal resolução do digno delegado recebeu louvores de todos quantos se apinhavam no stadium."
4. "Venceu o valloroso eleven que, innegavelmente, melhor actuação produziu."
5. "O team do Flamengo mereceu sahir victorioso."
O futebol nasceu na Inglaterra. Veio para o Brasil carregadinho de termos ingleses. Com o tempo, foram traduzidos ou aportuguesados. "Foot-ball", "sport", "stadium" e "team" foram aportuguesados: futebol, esporte, estádio e time. "Match", "eleven", "off side" e "corner" foram traduzidos: jogo ou partida, onze, impedimento e escanteio.
Se isso aconteceu no futebol, por que não podemos fazer o mesmo em outras situações? O projeto do deputado Aldo Rebelo é bem-vindo. A Língua Portuguesa merece a nossa luta em sua defesa.
Prof. Sérgio Nogueira

ORIGEM DO TERMO "FORRÓ"
O forró, baile animado em que se dança ao som de ritmos nordestinos, é a redução do vocábulo "forrobodó", que Câmara Cascudo define no seu Dicionário do Folclore Brasileiro como uma festa popular, com música movimentada. O processo é o mesmo que produziu formas como "japa" (japonês), "refri" (refrigerante) ou "pornô" (pornográfico). Contudo, há uma versão popular de que o nome teria vindo da leitura estropiada da expressão inglesa " for all ", com que os engenheiros ferroviários ingleses da Great Western (ou os oficiais da base aérea americana de Natal, noutra versão) avisavam os operários de que a festa era aberta para todos. Lingüisticamente, a hipótese é tola; além disso, o forrobodó já existia no Brasil Colonial, muito antes da presença de ingleses ou americanos por aqui. (C.M.)
RISCO DE MORTE / RISCO DE VIDA
Se o risco é sempre de coisa ruim ("risco de infecção", "risco de contaminação", "risco de não se classificar para a fase final do campeonato", "risco de ficar desempregado", "risco de adoecer" etc.), parece cabível que se dêem como legítimas as construções "risco de morte" e "risco de morrer" ("Fulano ainda corre risco de morte"; "Fulano corre risco de morrer").
No entanto, há pelo menos duas explicações para o emprego de "risco de vida" no lugar de "risco de morte". A primeira delas se baseia no inegável horror que a palavra "morte" causa, o que talvez nos faça fugir dela como o diabo foge da cruz. A segunda explicação (talvez mais plausível) se assenta na idéia do cruzamento de construções ("Sua vida corre risco" com "Ele corre risco de vida", por exemplo) ou ainda na pura e simples omissão ("Correr o risco de [perder a] vida"). O nome técnico dessa omissão (de termo que se subentende) é "elipse".
O fato é que, nesses casos, não parece sensato remar contra a maré. O uso mais do que difundido da expressão "risco de vida" é motivo mais do que suficiente para que a aceitemos pacificamente. É bom que se diga que não lhe faltam registros nos dicionários. O "Dicionário Houaiss" dá três exemplos do emprego de "risco" com o sentido de "probabilidade de perigo" ("risco de vida", "risco de infecção", "risco de contaminação"). Publicado em 2001, o "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea", da Academia das Ciências de Lisboa, dá "risco de vida" e "perigo iminente de morte" como expressões equivalentes, exemplificadas com esta frase: "O doente encontra-se em risco de vida".
A ESCATOLÓGICA ORIGEM DA PALAVRA "VAGA-LUME"
O lucente bichinho é um eufemismo vivo, porque "Lume" significa "fogo", "brilho", "luz"; e o "v" de "vaga-lume", na verdade, é um "c" que foi trocado por "v" para atenuar, para evitar o desconforto que a forma original causa ou causaria.
O Dicionário Aurélio, por exemplo, manda ver "pirilampo", cujos sinônimos não são nada simpáticos. O "Houaiss" é mais direto: dá logo a lista no próprio verbete "vaga-lume" (que, segundo a obra, também se pode grafar "vagalume", sem hífen, tese que não é confirmada no "Aurélio", nem no Dicionário da Academia de Lisboa).
"AGORA EU ERA HERÓI"
É correto o emprego de "agora" em "Agora eu era herói", frase que inicia a linda música "João e Maria", composta por Sivuca, com letra de Chico Buarque?
"agora" pode equivaler a "neste momento", mas também pode equivaler a "nesse momento" ou "naquele momento", como atestam os dicionários. O de Antônio Houaiss dá este exemplo: "Esgotara suas energias, agora só queria descansar". O "Aurélio" dá este, de Machado de Assis: "Agora exercia a medicina como amador".
Sendo assim, a frase da memorável letra de Chico Buarque é perfeitamente vernácula.
GARÇOM/GARÇÃO/GARÇONETE/GARÇOA
A palavra "garçom" (que possui a variante "garção") vem do francês "garçon" ("jovem", "rapaz") e já foi usada em português com o sentido original, como se vê neste fragmento de Machado de Assis, citado no "Aurélio": "Era um lindo garção, lindo e audaz".
Na língua de hoje, predomina a forma "garçom", com o sentido de "empregado que serve em restaurantes". O "Vocabulário Ortográfico", da Academia, registra "garçoa". O único dicionário que registra "garçoa" é o de Caldas Aulete, que lhe dá o sentido de "moça", "rapariga". Os demais dão apenas "garçonete", e só como "empregada que serve em restaurantes".
UM DIA FORMIDÁVEL JÁ FOI UM DIA PAVOROSO
É interessante lembrar o caso da palavra "formidável". A sua raiz latina significa "medo, terror, pavor". Assim sendo, "um dia formidável" seria um dia "terrível, pavoroso". Hoje, sem dúvida, "um dia formidável" é um dia "maravilhoso". Temos aqui um exemplo de palavra que perdeu o seu sentido original e hoje apresenta um significado quase oposto.
PESA-ME/PÊSAMES
A palavra "pêsames", plural de "pêsame", vem da forma verbal "pesa", associada ao pronome "me" ("pesa-me"). No caso, o verbo "pesar" tem o sentido de "causar desgosto": "Pesa-me muito vê-lo sofrer". De "pesa-me" surgiu "pêsame", hoje mais comum no plural ("pêsames").
CUIDADO COM A EPIDEMIA!
Não é correto dizer: "O gado da fazenda pegou a epidemia de aftosa", pois a palavra epidemia tem o radical grego demo, que significa povo.
Aftosa é doença própria de animais quadrúpedes, logo só podemos usar epidemia para doenças que dão em gente.
O "BOCA DO INFERNO"
Gregório de Matos foi o primeiro grande poeta brasileiro. Nasceu em 1633, em Salvador, na Bahia. Seus poemas denunciam a ganância e a busca do prazer pelos poderosos. Por isso, ganhou o apelido de "Boca do Inferno".
URBANIDADE E HIPERURBANISMO
Estava escrito numa biblioteca pública: "É dever do funcionário público tratar com urbanidade o público e os colegas de serviço."
Dizer que "deve-se tratar alguém com urbanidade" estaria correto?
De fato, é de estranhar o emprego de "urbanidade" como equivalente a "gentileza, amabilidade", etc. Mas o problema é que a língua tem relação direta com a História, com os fatos que marcam a vida de uma comunidade ou do homem em si. A palavra "urbanidade" é da mesma família de "urbano, urbanismo, urbanizar, urbanização, urbe". Tudo isso parte de uma raiz latina ("urbe"), cujo sentido básico é "cidade".
Em seu dicionário, Caldas Aulete explica: Urbanidade - "Cortesia entre pessoas civilizadas; civilidade adquirida pelo trato no mundo." Aí está a chave para a compreensão do fato: é nas cidades que o homem encontra o homem; é nelas que se organiza a vida em sociedade, em grupo. É nelas que se estabelecem as regras de convívio, de respeito aos direitos alheios.
Não é à toa que se dá a todo o conjunto de direitos e deveres de um ser humano o nome de "cidadania". Qualquer semelhança com a palavra "cidade" não é mera coincidência.
Nos estudos lingüísticos, há um caso interessantíssimo: a "ultracorreção" ou "hiperurbanismo". O que é isso? Nada mais do que o excesso de preocupação com a correção lingüística, que - ironicamente - acaba resultando em erros. É o caso do cidadão que faz questão de acertar todas as concordâncias e acaba pondo no plural até o que não deve sair do singular, como em "Houveram vários problemas durante a festa". Não "houveram" problemas; "houve". Não se faz a flexão de plural do verbo haver nesses casos.
Tentando mostrar qualidades de ser "civilizado, culto", o cidadão erra por excesso. Isso se chama "hiperurbanismo" justamente porque a pessoa exagera nos dotes "urbanos" - cultura formal, no caso.
DESTRO/DESTREZA/ESQUERDO/SINISTRO
O que é ter destreza, mostrar destreza? É ter habilidade, agilidade, aptidão. Mas o primeiro sentido que aparece nos dicionários para "destreza" é "qualidade de destro". E o que é "destro" (que se lê "dêstro", com o "e" fechado, segundo os dicionários)? É "direito", ou "que fica do lado direito".
Como a maioria das pessoas tem mais agilidade com a mão direita (destra) do que com a esquerda, a habilidade acabou sendo chamada de "destreza".
E quem tem habilidade com as duas mãos é "ambidestro"; quem não tem com nenhuma é "ambiesquerdo".
Voltando aos destros, veja agora um dos tantos caprichos da língua portuguesa: "destro" se escreve com "s", mas em muitas palavras compostas em que entra esse elemento aparece o "x" da raiz latina ("dextru, dexter"): dextrocardia, dextrocerebral, dextrofobia, dextropedal, etc.
Ainda com relação ao sentido que as palavras adquirem, é interessante notar o que ocorre com "esquerdo". A palavra vem do vasconço, ou seja, da língua do País Basco. Em latim, "esquerdo" é "sinistru, sinister". E o que é "sinistro", em português? Além de "esquerdo" ("Mal podia a mão sinistra vibrar a sangrenta espada", escreveu Gonçalves Dias), "sinistro" tem vários sentidos ligados à idéia de temor, ameaça, mau agouro, maldade etc. Em linguagem securitária (do ramo de seguros), o sinistro nada mais é do que o próprio acidente. Tudo porque o "bom", o "normal" é o destro; o esquerdo (o sinistro) é "anormal".
CURIOSIDADES ORIENTAIS EM NOSSO IDIOMA
-Decassegui: é o nome dado aos brasileiros que vão trabalhar no Japão.
-Issei: japonês que emigra para a América.
-Nissei: Filho de pais japoneses, nascido na América.
-Sansei: Filho de nissei, nascido e criado na América.
-Bonsai é planta em bandeja. Árvores e arbustos plantados em pequenas bandejas que os mantêm, com podas constantes, num tamanho mínimo. Uma prática milenar na China e no Japão, sendo que neste país há o bonsai mais antigo do mundo, com cerca de 1500 anos. A curiosidade maior é que os frutos dessas árvores minúsculas são de tamanho normal.
Essas palavras já constam dos principais dicionários e do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da ABL.
ALGUMAS FRASES INCORRETAS DO NOSSO DIA-A-DIA
Segundo a lei, "estupro" é só de mulheres. Algo parecido ocorre com a palavra "rapto". Com alguma freqüência, temos o desprazer de ler em nossos jornais que "uma criança foi raptada". Novamente, encontramos o mau uso de uma palavra: um menino não pode ser raptado, pois rapto é sempre de mulheres e com fins libidinosos. Na verdade, as crianças são seqüestradas. Como não há pedido de resgate, preferem dizer que elas foram "raptadas". Há quem pense que, se não houver pedido de resgate, não há seqüestro. Outro engano. Quando o seqüestrador entra em contato com a família e exige alguma coisa em troca para libertar o seqüestrado, temos um outro crime: a extorsão. Assim sendo, o que os jornais chamam de "seqüestro" na maioria das vezes trata-se de um seqüestro seguido de extorsão ou extorsão mediante seqüestro. Seqüestrar é "tirar a liberdade de alguém ou alguma coisa". É por isso que um bem pode ser seqüestrado, ou seja, torna-se indisponível (seu dono não pode vendê-lo, por exemplo).
É interessante lembrar o velho caso do "roubo" e do "furto". Só há roubo se houver algum tipo de "violência". É comum as pessoas definirem os cleptomaníacos como "aqueles que têm a mania de roubar". Está errado. O cleptomaníaco tem a mania de furtar. Em geral, ele não agride ninguém. O seu prazer é "pegar escondido".
É também comum lermos ou ouvirmos no meio jornalístico: "Fulano entrou com uma liminar." Ora, ninguém entra com liminar. Liminar é algo que se pede, e o juiz concede ou não. É a mesma história do "entrar com efeito suspensivo". Isso é muito comum no meio esportivo. "Efeito" é conseqüência. Ninguém "entra" com efeito suspensivo. Mais uma vez é algo que se pede. O certo, portanto, é dizer que "se pediu efeito suspensivo". Agora, se você quer ver um juiz ficar "louco da vida", é só dizer que ele "deu um parecer". Quem dá parecer é consultor, perito, advogado... Juiz decide.
E em relação ao termo "denúncia", para quem não sabe, a verdadeira denúncia só pode ser feita pelo Ministério Público. Apenas o promotor pode apresentar uma denúncia. Rigorosamente, você não pode denunciar o seu vizinho porque ele bate na mulher. O cidadão comum acusa. Na verdade, nós estamos falando de uma denúncia formal, pois na linguagem popular o uso do verbo denunciar já está consagrado. Depois do "disque-denúncia", então, não tem mais jeito.
A ARTE DE ADVINHAR O PASSADO: À LUZ DA ETIMOLOGIA - I
Gabriel Perissé
O passado é aquilo que não passa. É aquilo que permanece registrado pelas palavras e, sobretudo, no corpo das palavras.
A etimologia, ciência auxiliar da filosofia e da reflexão literária, mostra-nos a consistência de cada palavra e nos ajuda, como diria Clarice Lispector, a espanar a poeira que se acumula sobre a linguagem, e a desvirtua.
O uso banalizador da linguagem torna-a opaca, anêmica, vazia, insossa, inútil convenção a que obedecemos sem refletir. Mas quando a estudamos etimologicamente, vislumbramos coincidências e explicações. As palavras se rejuvenescem e brilham diante de nós.
Lendo a sua história, descobrimos se o que as palavras dizem é de fato o que desejamos dizer, e aprendemos como é necessário limpar nossos olhos para vê-las de novo, percorrer o caminho que nos leva às suas origens, adivinhar (adivinhar é dom divino...) como tudo começou.
Muitas das nossas desorientações se devem ao fato de não procurarmos o oriente, lugar onde nasce o sol da verdade, o étimo da palavra. Seríamos mais originais se nos guiássemos pelo sentido primeiro das expressões cotidianas. Lemos o jornal, ouvimos notícias, mas as palavras lidas e ouvidas permanecem neutralizadas pela rotina ou por nossa cegueira. Daí a importância do colírio etimológico!
A etimologia revê a palavra em sua radicalidade, denunciando falsas interpretações, desempoeirando séculos de mal-entendidos.
"Candidato", por exemplo, é uma palavra que, desgastada pelo uso, traz em si uma verdade que vale a pena recuperar. Vem do latim candidatus, isto é, vestido de branco (candidus). Na antigüidade, aquele que disputava um cargo público e precisava angariar votos vestia-se de branco para simbolizar sua pureza. É lógico, portanto, que exijamos de um candidato ou candidata que a sua vida, e não apenas as suas roupas, estejam limpas!
Outra palavra do âmbito político: demagogo. Dêmós, em grego, é povo. Demografia é o estudo estatístico das populações. Já a partícula agogós significa "aquele que conduz". A função do pedagogo, por exemplo, era levar o aluno à escola. Chamava-se demagogo, portanto, quem conduzia o povo. Demagogo era o líder popular em quem se depositavam as esperanças de uma nação. Com o tempo (e com os abusos), a palavra adquiriu conotação negativa, mas o certo mesmo seria votarmos em nossos mais competentes demagogos!
A etimologia é luz no túnel do tempo.
[Gabriel Perissé é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência), "O leitor criativo" (Omega Editora) e do recém-lançado "Palavra e origens" (Editora Mandruvá).]
Publicado no jornal Correio da Cidadania.
PALAVRA PUXA PALAVRA: À LUZ DA ETIMOLOGIA - II
Gabriel Perissé
"Toda língua são rastros de velho mistério", disse Guimarães Rosa.
A etimologia não chega a ser uma ciência, pelo menos no sentido rigorista do termo. Constitui uma disciplina, um método com o qual recuperamos o vigor de palavras que pronunciamos diariamente.
Perseguir as pistas que o passado deixou nas palavras é uma das melhores formas de reencontrar nossas heranças e fazer um exercício de reflexão sobre quem somos, homo sapiens e homo loquens , seres que concretizam na linguagem o seu saber.
Saber lembra sabor, dois conceitos etimologicamente vinculados. O ser humano que saboreia a realidade é mais sábio, é mais humano.
E ser humano é ser aquele que sabe ter nascido do húmus, da terra (a propósito, em sua tradução do Gênesis Terroso , um neologismo perfeito para a noção que reside na palavra hebraica).
Nesse palavra-puxa-palavra, o ser humano descobre que é mais humano quando pratica a humildade, virtude que nada tem de rebaixamento, mas é a qualidade de quem emerge do húmus, do barro, e mantém os pés no chão.
Sem dúvida, a etimologia pode dar pé a explicações absurdas, a "chutes" (para fora) do ponto de vista filológico.
Como no caso da palavra cadáver , que seria composta, na imaginação dos etimologistas medievais, pela primeira sílaba de cada uma das três palavras da frase latina carnem data vermibus (carne entregue aos vermes).
A etimologia pode dar margem também a especulações jocosas, como a que Tim Maia fez sobre a palavra robótica , associando-a ao verbo "robar" - eu robo, tu robas, todos robam... ou a constatações que só se tornam incontestáveis depois de apontadas, como a de Carlos Drummond de Andrade: "o imposto se chama imposto porque é imposto."
As palavras ganham novos coloridos com o tempo e pela etimologia podemos aquilatar as "camadas de tinta" que estão por baixo.
Um curioso exemplo é o da palavra museu . O museu remete às musas, entidades encarregadas de preservar as artes e de lembrar aos seres humanos que podem subir ao Olimpo, aos céus, e partilhar com os deuses a beleza e a imortalidade.
Entre as musas estão a poesia, a história, e, sobretudo, está a música (óbvio, não?), que Gilberto Gil cantou: "Minha música, musa única...".
A etimologia faz-nos ouvir a música que adormeceu nas palavras.
[Gabriel Perissé é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência), "O leitor criativo" (Omega Editora) e do recém-lançado "Palavra e origens" (Editora Mandruvá).]
Publicado no jornal Correio da Cidadania.

"ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA"

A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que viveu no período de 1865 a 1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela.
LÍNGUA PORTUGUESA
Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"

E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

OUTROS textos e POEMAS SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa . Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
["Livro do Desassossego", por Bernardo Soares. Vol. I, Fernando Pessoa.]
SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA
(Publicado no Livro Gota de Orvalho, de Waldin de Lima, poeta gaúcho, no ano de 1989)

Havia luz pela amplidão suspensa
no azul do céu, vergéis e coqueirais...
e o Lácio, com fulgores divinais,
abrigava de uma virgem a presença...

Era um castelo de ouro, amor e crença,
que igual não houve, nem haverá jamais...
Onde os poetas encontraram ideais
na poesia nova, n'alegria imensa...

A virgem era a Língua portuguesa,
a mais formosa e divinal princesa,
vivendo nos vergéis de suave aroma!

Donzela meiga que, deixando o Lácio,
abandona os umbrais do seu palácio,
para ser de um povo o glorioso idioma!...

Fatos Absurdos:

Inglês quer se casar com o videogame
Enquanto muitos passam a vida a procura do verdadeiro amor, Dan Holmes, de 29 anos, busca por um padre que aceite celebrar a cerimônia de casamento entre ele e seu par: um videogame Playstation2. O inglês, morador da cidade de Oxfordshire, alega já ter gasto cerca de sete mil libras (aproximadamente R$23,5 mil) em cartuchos e consoles, e quer que o próximo passo de sua relação com o aparelho seja o matrimônio. Dan, que ainda não conseguiu formalizar seu amor religiosamente, já o fez de forma legal, mudando seu nome para Playstation 2. A Sony, fabricante do videogame, afirmou que o caso mostra uma "enorme lealdade" do jogador. Fonte: Popular

Fazendeiro da Califórnia encontrou anel perdido dentro de uma batata
Em 1934, Roderick Peal, fazendeiro da Califórnia, encontrou dentro de uma batata cozida, enquanto jantava, o anel de safira que sua mulher perdera alguns meses antes. Nenhum especialista conseguiu explicar como um anel perdido na terra fora incluído no interior de uma batata que brotara no local.

Intelectuais quiseram impedir construção da Torre Eiffel
Em janeiro de 1888, um manifesto de 380 intelectuais e artistas exigiu a demolição da horrenda monstruosidade que estava sendo construída em Paris. Era a Torre Eiffel, hoje o símbolo da cidade. Tem este nome porque foi idealizada e construída por Gustave Eiffel. » Torre Eiffel: o monumento mais visitado do mundo

Explosão de quatro mil toneladas de TNT a bordo de um navio arremessou âncora a 8 km de distância
Excluindo os testes nucleares, uma das maiores explosões já provocadas pelo homem no planeta ocorreu em 1917, no porto de Halifax, Canadá. Quatro mil toneladas de TNT explodiram a bordo do navio Mont Blanc. Sobrou apenas um pedaço da âncora, que caiu a cerca de 8 quilômetros de distância.

Visão de raios X, quem não gostaria de ter?
A descoberta dos raios X, em 1895, deu origem a um curioso incidente. Após fazer correr o boato sobre um dispositivo portátil que permitiria enxergar o corpo das mulheres através da roupas, os lojistas aproveitaram para promover a venda de tecidos "a prova de raios X".

Matemático russo foi considerado bruxo e condenado à fogueira devido à precisão de seus cálculos
O tzar Ivan IV da Rússia, que reinou de 1533 a 1584, mandou executar na fogueira um matemático a quem pedira, apenas para divertir a corte, que calculasse o número exato dos tijolos necessários para construir determinado prédio. Ao término da obra, verificada a precisão dos cálculos, Ivan IV sentenciou o matemático à morte como bruxo, porque era dotado de estranhos e perigosos poderes.

A ineficiência da burocracia
A burocracia é um mal universal. Em 1949, a Prefeitura de Paris, procurando salas disponíveis para instalar novos serviços, descobriu que ainda funcionava o Departamento de Indenizações dos Prejuízos causados pela Enchente de 1910. A seção era atendida por dois funcionários idosos, que revelaram ter pago a última indenização devida em 1913, ou seja, 36 anos antes.

Senhora abanando o leque fez célebre violinista espanhol interromper um concerto em Paris
Gênios da música têm as suas excentricidades. Pablo Sarasate, célebre violinista espanhol, certa vez interrompeu um concerto em Paris, irritado com uma senhora sentada na segunda fila do teatro. "Não posso continuar tocando no compasso de 3 por 4. Esta senhora me perturba, abanando-se com o leque no compasso de 2 por 3."

Contar em voz alta até um milhão levaria 12 dias
A inflação e o rotineiro noticiário sobre corrupção no Brasil, envolvendo milhões de reais, tiraram do brasileiro o entendimento do que seja um milhão. Se alguém contasse em voz alta, 24 horas por dia, sem parar - 1... 2... 3... até um milhão - de maneira a dizer um algarismo ou número por segundo, gastaria nada menos que 12 dias para terminar a enumeração.

Tzar russo instituiu imposto sobre barbas
Pedro, o Grande, o tzar que modernizou a Rússia no século 18, instituiu imposto sobre barbas, na tentativa de melhorar a higiene pessoal dos súditos. O tributo era anual e o contribuinte recebia um "cartão" como comprovante de quitação. Os fiscais raspavam a cara dos sonegadores.

Lei ainda regulamenta profissões antigas
Desejando reduzir as 12.666 leis municipais em vigor na cidade de São Paulo, os vereadores descobriram que ainda vigora uma legislação de 1927, regulamentando as profissões de motorneiro de bonde e de cocheiro de carruagens, ambas já extintas. Daqui a 70 anos, muitas profissões atuais terão o mesmo destino.

Cavalo foi condenado por crime de homicídio na França
Em 1639 o Tribunal de Dijon, na França, condenou um cavalo a morrer na fogueira por crime de homicídio. No julgamento, as testemunhas disseram que o cavalo, além de estar possuído pelo demônio, tinha premeditado o crime de jogar o cavaleiro no chão, para lhe quebrar o pescoço.

Barqueiro italiano construiu sozinho uma ponte utilizando destroços da II Guerra Mundial
Um dos mais extraordinários casos de iniciativa pessoal envolveu, em 1947, o barqueiro italiano Guido Bartoloni, que conduzia pessoas de uma margem a outra do rio Arno, entre as aldeias de Anchetta e Vallina, proximidades de Florença. Bartoloni construiu sozinho uma ponte metálica, utilizando apenas cabos e vigas encontradas entre destroços e sobras da II Guerra Mundial. Enriqueceu cobrando pedágio.

Dinheiro público foi usado na construção de pista de pouso para Ovnis em Nebraska, EUA
O governador de Nebraska, EUA, mandou construir uma pista de pouso para extraterrestres, esperando, em 1999, a visita de turistas da constelação de Alfa Centauro. O governador não consegue explicar como soube da notícia, muito menos as especificações técnicas das naves visitantes para construir pistas de pouso adequadas.

Carpinteiro causou histeria coletiva em Nova York ao afirmar que parte da ilha afundaria
Em 1824, um carpinteiro alarmou Nova York predizendo que a ilha de Manhattan ia afundar pelo excesso de construções na parte mais baixa. Houve histeria coletiva e foi organizada uma equipe para "serrar" a parte ameaçada, como ele propunha. Na data marcada para a operação, o carpinteiro sumiu. O mais inacreditável é que não ganhou um vintém com a história. Só queria mesmo era passar trote.

06 Outubro 2006

Chakanagem Total


Website counters